Já está se tornando praticamente uma tradição: durante um fim de semana inteiro, sempre próximo ao encerramento de abril, o Memorial da América Latina — um dos mais emblemáticos pontos turísticos da capital paulista, conhecido por sediar eventos culturais de diferentes expressões artísticas — transforma-se em um verdadeiro santuário dos headbangers. É nesse cenário que acontece o Bangers Open Air, um dos maiores festivais dedicados à música pesada na América do Sul, reunindo um público massivo em busca de diversão, pertencimento e, claro, shows de alguns dos principais nomes do metal mundial.
Nos dias 25 e 26, a segunda edição do festival (quarta no total, considerando sua fase anterior como Summer Breeze Brasil) entregou um lineup robusto e diverso, contemplando diferentes vertentes do metal. Do peso contemporâneo do metalcore e death metal moderno de bandas como Jinjer, In Flames e Killswitch Engage, passando pelo thrash metal de veteranos como Tankard e Onslaught, até chegar aos gigantes do heavy metal tradicional, como Black Label Society, Smith/Kotzen, Winger e Primal Fear. A cena nacional também teve forte representação, com nomes como Korzus, Torture Squad, Violator e Crypta. Entre os headliners, destacaram-se o Arch Enemy, que apresentou sua nova vocalista ao público brasileiro, e o Angra, que promoveu um encontro especial de diferentes formações da banda, incluindo, pela primeira vez em mais de duas décadas, integrantes da fase “Rebirth” reunidos no mesmo palco. Ao todo, foram mais de 40 atrações, compondo uma programação fácil de agradar até os seguidores mais hardcore de música pesada.
- Histórico
O evento hoje conhecido como Bangers Open Air teve sua estreia em São Paulo em 2023, ainda sob o nome Summer Breeze Brasil — a versão nacional do tradicional festival alemão realizado anualmente desde 1997, na cidade de Dinkelsbühl. Criado com o propósito de celebrar a música pesada em suas mais diversas vertentes, o festival sempre se destacou por reunir tanto nomes consagrados quanto artistas emergentes da cena extrema.
Após duas edições bem-sucedidas — tanto em público quanto em recepção —, marcadas pela aprovação dos fãs diante da proposta de reproduzir, em território brasileiro, a experiência de um grande festival europeu, a organização anunciou, em 2025, a mudança de nome para Bangers Open Air, por questões estratégicas de mercado. Desde então, o evento já reuniu mais de 100 mil headbangers no Memorial da América Latina, apresentando uma programação que equilibra grandes nomes internacionais e apostas em ascensão. Além disso, os organizadores já confirmaram uma nova edição no país para 2027.
- Experiência geral e shows
Assim como nas edições anteriores, o evento contou com uma ampla área dedicada ao merchandising, reunindo produtos exclusivos das bandas presentes no lineup, além de itens oficiais da marca Bangers Open Air. O espaço também abrigou estandes de patrocinadores e lojas especializadas na cultura heavy metal, com nomes já conhecidos do público, como Consulado do Rock e a revista Roadie Crew, além de produtores independentes que apresentaram criações autorais — de correntes e bottons a peças de vestuário e acessórios.
A estrutura gastronômica também foi um dos pontos fortes, com uma grande variedade de food trucks oferecendo diferentes opções de lanches e refeições. A área kids e o espaço horror, dois atrativos bastante elogiados em edições anteriores, foram mantidos, ampliando o alcance do festival para além da música e reforçando sua proposta de experiência completa.
O Waves Stage também foi mantido nesta edição, desta vez alocado em um espaço interno do Memorial. O palco merece destaque pelo importante papel de incentivo a bandas iniciantes, oferecendo uma infraestrutura de alto nível para grupos que, em geral, estão habituados à precariedade dos circuitos de casas underground. Para esses artistas, a participação no festival representa não apenas melhores condições técnicas de apresentação, mas também uma oportunidade valiosa de ganhar visibilidade diante de um público diverso e ampliar sua presença na mídia. Neste ano, a programação do palco secundário também abriu espaço para momentos especiais, incluindo homenagens como o tributo a Ozzy Osbourne, um dos fundadores do heavy metal, falecido no ano anterior. Além disso, iniciativas como a School of Rock trouxeram jovens músicos ao palco, apresentando covers e reforçando a continuidade e renovação do gênero.
Para os profissionais de imprensa, a organização disponibilizou uma sala exclusiva na Biblioteca Latino-Americana, equipada com snacks, bebidas e Wi-Fi gratuito, garantindo suporte adequado para a cobertura em tempo real de tudo o que acontecia no evento.
Sob um calor intenso, o dia começou dividindo o público entre o hard rock e o thrash metal. No palco Sun, o grupo germano-sueco Lucifer, liderado pela carismática Johanna Sadonis, entregou uma apresentação sólida e bastante profissional. Com um som fortemente influenciado por nomes clássicos como Black Sabbath, Pentagram e outros representantes do doom metal, a banda apostou em uma sonoridade calcada em um estilo tradicional. Apesar de não atrair um grande público naquele horário, o show se mostrou uma experiência recompensadora para quem esteve presente, muito impulsionada pela presença de palco e pela entrega da vocalista. Vale destacar que o grupo segue em turnê pelo Brasil, incluindo uma apresentação em São Paulo ainda nesta semana.







































Do outro lado, no palco Ice, o Korzus, um dos pilares do thrash metal paulistano, subia ao palco para apresentar sua nova formação. A banda agora conta com Jean Patton (ex- Project 46) efetivado após um período como substituto e Jéssica Falchi — ex-integrante da Crypta — assumindo as guitarras. O repertório percorreu diferentes fases da carreira de mais de quatro décadas do grupo, mesclando faixas em inglês e português, como “Guilty Silence”, “Truth”, “Agony”, “Catimba” e “Correria”.
Um dos momentos mais marcantes foi a execução inédita do single “No Light Within”, primeiro lançamento com a nova formação, já acompanhado de videoclipe. O entrosamento entre os músicos chamou atenção: a banda soou coesa, segura e entrosada, como se a formação estivesse consolidada há anos. Ao que tudo indica, as mudanças têm tudo para inaugurar uma fase bastante produtiva para o conjunto.














Iniciando as atividades no Palco Hot, os suecos do Evergrey deram sequência à sua passagem pelo Brasil, que já havia incluído um show de aquecimento ao lado do Silver Dust no Manifesto Bar. Com um repertório que incluiu faixas como “Falling From the Sun”, “Weightless”, “Call Out the Dark” e “Leaving the Emptiness”, o grupo apresentou um som denso e melódico, equilibrando peso instrumental com linhas vocais limpas e acessíveis. O resultado foi uma performance interessante, sustentada também por uma produção visual caprichada, com artes sincronizadas no telão de LED. Outro ponto curioso foi a disposição de palco, com a bateria de Simen Sandnes posicionada de perfil, garantindo maior visibilidade ao músico.






No Palco Sun, o Violator seguiu representando o thrash metal nacional com uma apresentação carregada de posicionamento político. Logo de início, uma bandeira da Palestina já sinalizava o tom do show. Entre músicas como “Endless Tyrannies”, “Respect Existence or Expect Resistance” e “False Messiah”, o vocalista Pedro Poney conduziu discursos polêmicos, criticando figuras políticas internacionais como Donald Trump e Benjamin Netanyahu, instituições religiosas e seus líderes gananciosos e a condução da pandemia no Brasil. Houve também espaço para uma homenagem ao baixista Bucho, do Rot, figura central do grindcore nacional falecida durante a pandemia. Foi um set que mostrou a conexão entre metal e discurso político.






Já no Palco Ice, os alemães do Feuerschwanz fizeram sua estreia em território brasileiro — e a impressão positiva foi imediata. Musicalmente ancorado no power/folk metal, o grupo se destacou principalmente pela proposta performática extravagante: violinos, gaitas de fole, dançarinas e figurinos que remetem a guerreiros medievais criaram um espetáculo visual tão importante quanto o som. Em meio às composições autorais, versões inusitadas de hits pop como “Dragostea Din Tei” e “Gangnam Style” foram recebidas com bom humor pelo público. Uma das apresentações mais originais do festival, com forte potencial de conquistar novos fãs — especialmente em um eventual show solo em ambiente mais intimista.






Entre os nomes mais aguardados do lineup, o Jinjer subiu ao Palco Hot representando a força do metal ucraniano. Apesar das passagens anteriores pelo Brasil, esta marcou a estreia da banda em festivais no país. O setlist privilegiou o material mais recente, com destaque para o álbum Duél (2025), trazendo faixas como “Green Serpent”, “Fast Draw”, “Hedonist” e “Someone’s Daughter”, que exploram uma sonoridade mais voltada ao djent e inserções eletrônicas. Porém, clássicos como “Disclosure!” e “Sit Stay Roll Over” não ficaram de fora.
Durante a apresentação, a vocalista Tatiana Shmayluk chegou a comentar sobre o calor intenso e, em alguns momentos, aparentou certo desgaste físico. Ainda assim, conseguiu entregar uma performance impressionante, alternando presença de palco energética com uma entrega vocal extremamente técnica e potente.
Seguindo na linha do metal moderno, o Killswitch Engage subiu ao Palco Ice marcando seu retorno ao festival após a apresentação em 2024. O repertório fugiu do previsível, apostando em faixas menos óbvias como “Fixation on the Darkness”, “Hate by Design” e “Forever Aligned”, além do novo single “Broken Glass”. Ainda assim, clássicos que ajudaram a definir o metalcore — como “The End of Heartache”, “My Curse” e “My Last Serenade” — também marcaram presença, garantindo a conexão imediata com o público.
Se no ano anterior a banda havia investido pesado em produção visual, com labaredas, efeitos de fumaça e recursos em 3D no telão de LED, desta vez o espetáculo foi mais contido nesse aspecto.
Desta vez, o grande “enfeite” foi a energia em palco do guitarrista Adam Dutkiewicz, que percorreu o palco constantemente, interagindo com o público e demonstrando entusiasmo genuíno em retornar ao Brasil. Já o vocalista Jesse Leach elevou ainda mais a conexão com os fãs ao descer para a pista em determinados momentos, chegando a cantar junto à plateia e até mesmo sobre a icônica mão de concreto do Memorial da América Latina.
Para encerrar, a banda apostou em uma escolha certeira: a versão em metal moderno de “Holy Diver”, clássico eternizado por Ronnie James Dio. O cover funcionou como um ponto de convergência entre gerações, agradando tanto os fãs mais novos quanto os headbangers “das antigas”, e fechando o set em alta.








Também marcando seu retorno ao festival — após uma única participação na edição inaugural, em 2023 — , a Crypta subiu ao Palco Sun para apresentar sua nova formação, agora com a guitarrista estadunidense Victoria Villarreal. Mesmo concorrendo diretamente com o Black Label Society no palco principal, o quarteto conseguiu atrair um público expressivo, reforçando sua crescente relevância no cenário internacional. A recepção calorosa evidencia por que discos como Echoes of the Soul e Shades of Sorrow são frequentemente apontados entre os lançamentos mais impactantes do metal na década.






Apesar de não ser o headline do Palco Hot Stage, o Black Label Society, banda comandanda pelo lendário guitarrista Zakk Wylde fez um show digno de atração principal. Com um setlist poderoso, marcado por efeitos especiais cativantes e iluminação poderosa, o grupo mesclou clássicos, mas também apresentou do novo disco “Engine of Demolition”. Em cada música, Zakk e seus músicos de apoio eram pura técnica, mandando solos excessos e shreddings em uma velocidade quase sobrehumana. Porém, os maiores destaques do show foram as diversas homenagens. Em “In This River”, o grupo celebrou o legado de Vinnie Paul e Dimebag Darrell, ambos do Pantera. Já em “Ozzy’s Song”, uma celebração ao “principe das trevas”. Eles ainda revisitaram a carreira do mestre do heavy metal com “No More Tears” e, em “Stillborn”, colocaram uma foto do músico como fundo. O grupo entregou um combo de técnica, emoção e capricho visual.






Ainda no Palco Sun, os alemães do Tankard — um dos nomes associados ao chamado “Big Four do thrash alemão” — protagonizaram um dos shows mais descontraídos e caóticos do dia. Mesmo após a apresentação na pré-party realizada no Audio, o público compareceu em peso para acompanhar clássicos do chamado “metal cervejeiro”, como “The Morning After”, “Need Money for Beer”, “Die With a Beer in Your Hand” e “Zombie Attack”. A resposta foi imediata: moshpits intensos tomaram conta da pista, enquanto sinalizadores acesos pela plateia criaram um clima ainda mais incendiário. Apesar das tentativas da equipe de segurança em conter a situação, os esforços se mostraram praticamente ineficazes diante do entusiasmo coletivo.
Encerrando o primeiro dia após mais de dez horas de música pesada, o Arch Enemy assumiu o Palco Hot, apresentando ao público brasileiro sua nova vocalista, Lauren Hart, após a saída conturbada de Alissa White-Gluz. O repertório percorreu diferentes fases da banda, indo de faixas mais antigas, como “Bury Me an Angel”, até materiais recentes, como o single inédito “To the Last Breath”, sem deixar de lado hinos como “My Apocalypse” e “Nemesis”.

Musicalmente, a banda se mostrou precisa e experiente, entregando uma performance sólida, potencializada por efeitos visuais que ampliaram o impacto do show. Quanto à nova vocalista, Lauren demonstra competência técnica e respeito ao legado construído por suas antecessoras. No entanto, sua performance se mostrou, em certos momentos, excessivamente agressiva, parecendo algo um tanto forçado.
Já um ponto negativo foi o volume excessivamente alto, que chegou a causar desconforto em parte do público presente e podendo ser ouvido até mesmo do Terminal Barra Funda, próximo ao Memorial. Ainda assim, o show cumpriu seu papel como encerramento, deixando claro que o Arch Enemy segue como uma força relevante dentro do cenário e mantendo a confiança dos fãs quanto ao futuro da banda.

Quer saber como foi o segundo dia do Bangers Open Air 2026? Em breve, resenha completa aqui no Heavy Metal Online.
Fotos: Anderson Hildebrando

































































































































































































































































