O Brasil é mundialmente reconhecido por gêneros como samba, bossa nova e tropicalismo. Ainda assim, ao longo das últimas décadas, o país também consolidou uma das cenas de rock mais apaixonadas e receptivas do mundo. Não por acaso, praticamente todos os grandes nomes do gênero, do punk ao metal, do rock alternativo ao indie, passaram por palcos brasileiros em algum momento de suas trajetórias, encontrando por aqui um público fiel e caloroso.
Curiosamente, uma das poucas exceções a essa regra sempre foi o Redd Kross. Formada em 1979, na cidade de Hawthorne, Califórnia, pelos irmãos Jeff e Steven McDonald, então ainda adolescentes, a banda ajudou a construir a ponte entre o hardcore californiano do início dos anos 1980 e o rock alternativo que dominaria o cenário mundial na década seguinte. Embora tenha surgido no circuito underground, o conjunto desenvolveu uma identidade própria, combinando punk, power pop, hard rock e melodias extremamente acessíveis, criando um som que influenciaria diversas gerações de músicos. Não à toa, o Redd Kross costuma ser lembrado como “a banda favorita da sua banda favorita”, tendo exercido influência sobre artistas como Sonic Youth, Soundgarden e Nirvana. No entanto, apesar do enorme prestígio dentro da cena alternativa — e de ter conquistado admiradores brasileiros desde os tempos em que seus videoclipes eram exibidos pela MTV Brasil — , a banda jamais havia se apresentado por aqui ou em outras nações da América do Sul.
Felizmente, essa dívida foi finalmente quitada após mais de 45 anos de carreira. Na última sexta-feira (26), o quarteto realizou sua estreia com um show no Cine Joia, uma das casas mais tradicionais da cena alternativa paulistana. A apresentação fez parte das comemorações dos 18 anos do In-Edit Brasil e dos 40 anos da histórica London Calling Discos, referência para colecionadores e amantes da música alternativa em São Paulo, em um evento realizado pela Maraty. A visita ao país também incluiu a exibição do documentário Born Innocent: The Redd Kross Story na Cinemateca Brasileira, seguida de um bate-papo com os integrantes, proporcionando aos fãs uma rara oportunidade de conhecer mais de perto a trajetória da banda. A pequena turnê também contou com uma data em Buenos Aires.
- Experiência geral e shows
O evento começou com duas atrações de estilos bastante distintos, mas que se mostraram escolhas acertadas para preparar a atmosfera da noite. A primeira foi a Twinpines, veterana do rock alternativo e do emo paulistano, que há mais de duas décadas ocupa um lugar de destaque na cena independente. Em um set enxuto, a banda apresentou algumas de suas canções mais conhecidas, com ênfase nas faixas de “Niagara Falls”, animando a galera que ia chegando aos poucos. Para a alegria dos fãs, os músicos ainda anunciaram que um novo álbum de estúdio está a caminho, depois de um longo período sem lançamentos inéditos.

Na sequência, foi a vez dos panamenhos do Alpha Whores subirem ao palco. Com uma proposta muito mais pesada, a dupla formada pelos irmãos Massiel Pinzón e Juan Carlos apresentou um stoner metal carregado de peso, distorção e personalidade. O repertório privilegiou músicas dos elogiados álbuns “I” e “YOU CAN COME OUT NOW”, com ambos alternando os vocais ao longo da apresentação. Massiel impressionou pela intensidade com que conduziu a bateria, executando cada faixa com uma “mão pesada” absurda nas baquetas — com tamanha agressividade resultando até mesmo em uma breve pausa para ajustes no instrumento. Enquanto isso, Juan chamou atenção pelo timbre extremamente grave de sua guitarra, muitas vezes soando mais próximo de um baixo do que de um instrumento de seis cordas.

Com a casa já praticamente lotada — e contando até mesmo com integrantes de bandas importantes da cena nacional, como Ratos de Porão, Hateen e Street Bulldogs, espalhados pela plateia — , Jeff McDonald (voz e guitarra), Steven McDonald (voz e baixo), Dale Crover (bateria) e Jason Shapiro (guitarra) surgiram no palco vestindo macacões brancos salpicados de tinta, visual que reforçava o espírito irreverente do grupo. Sem rodeios, abriram a apresentação com “Huge Wonder”, clássico dos anos 1990 que imediatamente incendiou o público e deu início a uma viagem pela extensa carreira da banda.
O repertório passeou por diferentes fases da discografia, equilibrando nostalgia e novidades com enorme naturalidade. Vieram faixas como “Peach Kelli Pop”, “Uglier”, “Lady in the Front Row”, “Jimmy’s Fantasy”, “Mess Around”, “Annie’s Gone” e “Neurotica”, esta última antecedida por um caprichado solo de bateria. Também chamou atenção a quantidade de covers inseridos ao longo do set, entre eles “I’ll Blow You a Kiss in the Wind”, de Tommy Boyce & Bobby Hart, “Crazy World”, das Frightwig, e “It Won’t Be Long”, dos Beatles. Ao mesmo tempo, o grupo fez questão de mostrar que continua criativamente ativo ao incluir diversas músicas de seu mais recente álbum duplo homônimo, como “Candy Coloured Catastrophe”, “Stunt Queen” e “I’ll Take Your Word for It”.

Se musicalmente a apresentação foi impecável, a postura da banda no palco acabou sendo um show à parte. Steven McDonald foi, sem dúvida, o grande comunicador da noite. Entre uma música e outra, conversava constantemente com o público, fazia piadas, improvisava passos de dança, simulava golpes de karatê e até algumas posições de ioga, arrancando risadas da plateia. Em uma das conversas com os seguidores, pediu desculpas pela demora de mais de quatro décadas para visitar o Brasil e revelou que o Redd Kross chegou a ser escalado para abrir uma turnê dos Ramones pelo país em 1994. O plano, porém, acabou cancelado por circunstâncias alheias à vontade da banda. Segundo Steven, perder aquela oportunidade permanece como uma das maiores frustrações de sua carreira. Jeff McDonald também mostrou enorme descontração, interagindo bastante com os fãs e adicionando um toque teatral ao espetáculo ao aparecer em determinado momento com um tecido cobrindo o rosto.

Quando parecia que o show caminhava para o fim, o Redd Kross ainda reservava uma surpresa. No bis, a banda retornou ao palco para executar mais oito músicas, revisitando praticamente todo o repertório do clássico EP “Red Cross” — ainda que fora da ordem original de lançamento. Para encerrar definitivamente uma noite histórica, o quarteto prestou homenagem a duas de suas grandes influências com versões vibrantes de “Crazy Horses”, dos The Osmonds, e “Deuce”, do Kiss.

Ao final do espetáculo, a sensação era de que o Redd Kross jamais deveria ter demorado tanto para desembarcar no Brasil. A sintonia entre banda e público foi imediata, como se aquela relação estivesse apenas aguardando o momento certo para acontecer. Depois de uma noite marcada por nostalgia, irreverência e muito bom humor, restou apenas a esperança de que o intervalo até a próxima visita seja infinitamente menor.
Fotos: Flávio Santiago (Credenciado pelo portal On Stage, que gentilmente compartilhou seu trabalho)













Setlist
- Huge Wonder
- Peach Kelli Pop
- Stay Away From Downtown
- Stunt Queen
- Uglier
- I’ll Blow You a Kiss in the Wind
- Crazy World
- Lady in the Front Row
- Mess Around
- I’ll Take Your Word for It
- Candy Coloured Catastrophe
- Annie’s Gone
- Emanuelle Insane
- It Won’t Be Long
- Neurotica
- Switchblade Sister
- Jimmy’s Fantasy
- Linda Blair / I Want You (She’s So Heavy)
Bis:
- Annette’s Got the Hits
- Cover Band
- Clorox Girls
- I Hate My School
- S & M Party
- Standing in Front of Poseur
- Crazy Horses
- Deuce
