Rancore mostra renovação com “Brio” em dois shows sold out no Sesc Pompeia

Em abril de 2026, o Rancore lançou BRIO , seu aguardado quarto álbum de estúdio. Distribuído pela Balaclava Records, o disco representa muito mais do que uma simples adição na discografia: trata-se do primeiro material de inéditas da banda em 15 anos e consolida seu retorno definitivo às atividades. Após entrar em hiato em 2017, o grupo voltou aos palcos em 2023 para apresentações esporádicas, mas ainda sem confirmar se retomaria a carreira de forma contínua. Agora, com canções inéditas, essa dúvida finalmente ficou para trás.

Musicalmente, o álbum se distancia de tudo o que a banda havia produzido ao longo de seus 25 anos de trajetória. Em vez do hardcore melódico de Yoga, Stress e Cafeína (2006) e Liberta (2008), ou do pop rock enérgico presente em Seiva (2011) — disco que levou o grupo ao grande público com sucessos como “Jeito Livre” e “Mãe” — , o quinteto investiu em uma sonoridade mais densa e atmosférica, incorporando influências do rock alternativo, pós-punk e até do shoegaze. Já as letras refletem uma forte transformação artística, abordando temas mais maduros e introspectivos, sendo um resultado direto das experiências vividas pelos integrantes na última década — paternidade, pandemia, perdas e crescimento intelectual e pessoal. Boa parte das composições do álbum levantam reflexões sobre espiritualidade, dualidade, física quântica, superação e tensões políticas.

Apesar de exibir mudanças significativas, Brio foi recebido com sucesso pelos fãs. Em maio, durante o show oficial de lançamento no Carioca Club, a banda contou com uma casa completamente lotada e protagonizou uma apresentação intensa, marcada pela forte participação do público e amplamente apontada pela imprensa especializada como um dos grandes shows do underground paulistano em 2026. Confirmando que o entusiasmo em torno do novo trabalho permanece em alta, o Rancore retornou à capital paulista nos dias 3 e 4 de julho para duas apresentações no Sesc Pompeia, ambas com ingressos esgotados. A equipe do Heavy Metal Online esteve presente na segunda noite para conferir de perto essa nova fase da banda.

Com alguns minutos de atraso em relação ao horário previsto, Candinho Uba (guitarra), Gustavo Teixeira (guitarra), Rodrigo Caggegi (baixo) e Ale Iafelice (bateria) foram ocupando o palco um a um. Em seguida, o vocalista Teco Martins surgiu com um pequeno gongo de mão, criando uma atmosfera quase ritualística para a abertura da apresentação. Após alguns instantes de expectativa, a banda iniciou o espetáculo com “Teoria do Caos”, dando início à execução de Brio na íntegra.

Ao vivo, as músicas do novo álbum ganha uma dimensão completamente. Se na gravação as composições soam densas e introspectivas, no palco elas assumem contornos muito mais explosivos, transformando-se em verdadeiros hinos de guerra quando acompanhadas pelo coro do público. Os fãs cantaram em uníssono faixas como “Sexo Selvagem”, “Cara de Louco” e “Cordão de Ouro”, demonstrando uma familiaridade impressionante com um disco lançado há poucos meses. Teco Martins entregou uma performance intensa, apostando em vocais rasgados e em uma presença de palco magnética, alternando momentos de fúria com coreografias e gestos quase performáticos que ajudavam a conduzir a dinâmica do espetáculo. Como resposta, a pista permaneceu em constante movimento, com mosh pits, stage dives e rodas que praticamente não cessaram durante toda a primeira metade do show.

Musicalmente, um dos grandes destaques ficou por conta do baixo de Rodrigo Caggegi. Suas linhas fortes e extremamente precisas sustentavam boa parte do peso das canções e, em diversos momentos, assumiam protagonismo sobre os demais instrumentos. A iluminação também merece destaque: trabalhando predominantemente com tons avermelhados e baixa intensidade, reforçava a atmosfera sombria das músicas, contribuindo para uma experiência visual tão impactante quanto a sonora.

Após executar integralmente o material inedito, o Rancore presenteou o público com uma sequência de clássicos que percorreu diferentes fases da carreira. O repertório passeou por canções mais acessíveis, como “Jeito Livre” e “Mãe”, sem deixar de lado faixas mais pesadas como “Respeito é a Lei”, “Samba” e “Escravo Espiritual”. Embora a recepção ao novo material tenha sido extremamente calorosa, foi durante esse bloco que a plateia atingiu seu auge de empolgação, com fãs chegando a subir ao palco para dividir os vocais com Teco Martins. Aqui, Teco também comandou alguns momentos de forte domínio do público: em certo momento, conduziu a plateia com total naturalidade, pedindo que todos se abraçassem antes de saltar juntos ao ritmo das músicas, além de ter organizando uma gigantesca roda punk que dividiu a pista ao meio, protagonizando um dos momentos mais memoráveis da noite.

Em vez de apostar na fórmula que os consagrou, o Rancore preferiu se desafiar e expandir seus horizontes musicais. A resposta vista no Sesc Pompeia mostra que o risco valeu a pena: o grupo permanece relevante justamente por nunca ter parado de evoluir.