Mayhem: 40 Anos de Trevas e Transcendência na VIP Station

Uma celebração sombria que atravessou quatro décadas de extremismo sonoro

Texto por Marcos Franke – @franke_marcos

Fotos por Leandro Cherutti – @leandro_cherutti

Na noite de domingo, 7 de dezembro, a VIP Station em Santo Amaro transformou-se em um portal temporal sombrio. O Mayhem, lenda viva do black metal norueguês, desembarcou em São Paulo para uma celebração que poucos imaginavam possível: quarenta anos de uma banda que redefiniu os limites entre arte e abismo, entre música e mitologia.

Desde o momento em que as primeiras notas ecoaram pela casa de shows ficou evidente que não se tratava de um show comum. Era uma cerimônia — um ritual de memória que honrava tanto os vivos quanto os mortos, tanto a música quanto a lenda que a cerca. A formação atual, liderada pelos veteranos Necrobutcher (baixo) e Hellhammer (bateria), junto ao enigmático Attila Csihar (vocal), Ghul e Teloch (guitarras), carregava sobre os ombros não apenas instrumentos, mas décadas de controvérsia, tragédia e genialidade musical.

O setlist funcionou como uma arqueologia sonora, escavando camadas temporais da banda com a precisão de um historiador e a brutalidade de um algoz. Começando com “Malum” e “Bad Blood”, o quinteto estabeleceu imediatamente a atmosfera densa que caracterizaria toda a apresentação.

A genialidade da curadoria musical residiu na forma como entrelaçou diferentes eras da banda. “MILAB” e “Psywar” — faixas do álbum Esoteric Warfare (2014) — dialogaram naturalmente com clássicos atemporais como “Freezing Moon” e “De Mysteriis Dom Sathanas”. Não havia nostalgia piegas aqui; havia, sim, uma continuidade orgânica que demonstrava como o Mayhem conseguiu evoluir sem trair sua essência primordial.

Attila Csihar, figura central desta narrativa, comandou o palco com uma presença que transcende a mera performance vocal. Seus vocais — ora guturais, ora sussurrados, sempre carregados de uma teatralidade sinistra — funcionaram como fio condutor entre as diferentes fases da banda. Em “Illuminate Eliminate”, sua interpretação alcançou momentos de pura catarse, enquanto em “Freezing Moon” evocou os fantasmas de Dead com uma reverência que beirava o sagrado.

As participações especiais de Manheim (bateria original) e Billy Messiah (vocal dos primeiros anos) adicionaram camadas de autenticidade histórica ao evento. Ver Manheim retomar as baquetas durante algumas faixas foi testemunhar um arqueólogo musical revisitando suas próprias criações. Messiah, por sua vez, trouxe de volta a energia crua dos primórdios, quando o Mayhem ainda era uma promessa sombria emergindo dos subterrâneos de Oslo.

O encore foi uma celebração da brutalidade primordial: “Deathcrush”, “Chainsaw Gutsfuck”, “Necrolust” e “Pure Fucking Armageddon” — títulos que soam como invocações demoníacas e que, de fato, funcionaram como tal. A plateia, composta por devotos que compreendiam a magnitude histórica do momento, respondeu com uma energia que transformou a casa de shows em uma catedral invertida.

Impossível assistir ao Mayhem sem confrontar os fantasmas que assombram sua trajetória. O suicídio de Dead, o assassinato de Euronymous por Varg Vikernes, os incêndios de igrejas — toda essa mitologia sombria pairava sobre o palco como uma presença tangível. Contudo, a banda conseguiu honrar essa história sem se tornar prisioneira dela. O show funcionou como um exercício de exorcismo coletivo, onde a música serviu como veículo para transcender a tragédia.

Necrobutcher, único membro sobrevivente da formação clássica além de Hellhammer, carregava em seu baixo não apenas linhas melódicas, mas décadas de sobrevivência. Suas performances em “Life Eternal” e “Funeral Fog” foram aulas de como transformar dor em arte, trauma em transcendência.

Tecnicamente, a apresentação foi impecável. A produção sonora conseguiu capturar tanto a brutalidade crua do black metal quanto as nuances atmosféricas que caracterizam o trabalho mais recente da banda. Ghul e Teloch, nas guitarras, demonstraram que compreendiam perfeitamente o legado que carregavam, executando tanto os riffs clássicos quanto as composições mais experimentais com igual maestria.

Hellhammer, na bateria, foi o metronômo implacável que manteve a coesão temporal do espetáculo. Seus blast beats em “Chainsaw Gutsfuck” foram lições de anatomia extrema, enquanto sua abordagem mais contida em “Ancient Skin” demonstrou maturidade artística.

O show do Mayhem na VIP Station funcionou como uma meditação sobre a permanência da arte diante da transitoriedade da vida. Quarenta anos depois de sua fundação, a banda provou que sua relevância transcende modismos ou gerações. Não se trata apenas de nostalgia — trata-se de reconhecer que certas criações artísticas possuem uma força vital que as torna imortais.

Para os presentes, foi uma noite de comunhão com algo maior que a música: foi um encontro com a própria mortalidade, mediado pela beleza sombria do black metal. O Mayhem não apenas tocou suas músicas; eles invocaram décadas de história, tragédia e transcendência, lembrando-nos de que a arte verdadeira nasce frequentemente dos lugares mais sombrios da experiência humana.

Quando as últimas notas de “Pure Fucking Armageddon” ecoaram pelo venue, ficou claro que havíamos testemunhado algo raro: uma banda que conseguiu transformar sua própria mitologia em música, sua tragédia em transcendência, sua mortalidade em eternidade.

★★★★★

O Mayhem provou, mais uma vez, que algumas bandas não apenas fazem música — elas criam mitologias que redefinem nossa compreensão sobre arte, vida e morte.

 

Formação:

Necrobutcher – baixo

Hellhammer – bateria

Attila Csihar – vocal

Ghul – guitarra

Teloch – guitarra

 

Participação especial:

Manheim – bateria

Billy Messiah – vocal

 

SETLIST:

Malum

Bad Blood

MILAB

Psywar

Illuminate Eliminate

Chimera

y Death

Crustalized Pain in Deconstruction

View From Nihil

Ancient Skin

Symbols Of Bloodswords

Freezing Moon

Life Eternal

De Mysteriis Dom Sathanas

Funeral Fog

 

Encore

Deathcrush

Chainsaw Gutsfuck

Necrolust

Pure Fucking Armageddon