Terror em São Paulo: mestres do hardcore entregam um espetáculo sem distinção entre público e artista

Eu canto essas músicas todas as noites. Peguem esse microfone. Expressem-se! Este não é o nosso show — este show é de vocês!”. Com essas palavras, Scott Vogel, vocalista do Terror, deu carta branca para que o público participasse ativamente da apresentação. Talvez fosse uma forma de compensar a distância imposta na última passagem da banda por São Paulo, quando dividiu o palco com Hot Water Music, The Menzingers, Hateen e Popeye em um evento cercado por grades e sem espaço para stage dives. Ou, quem sabe, uma maneira de reparar a espera de quase sete anos para retornar à capital paulista. Seja qual for o motivo, o que se viu no último domingo (25), na Fabrique, foi uma verdadeira aula de hardcore. A noite contou ainda com apresentações das bandas Dognerve, Arize e One True Reason. A produção ficou por conta da NDP e teve ingressos esgotados.

Banda

Formado em 2002, em Los Angeles, pelo vocalista Scott Vogel (ex-Buried Alive), o Terror é uma das bandas mais emblemáticas do hardcore contemporâneo. O grupo rapidamente se consolidou como referência do hardcore punk direto e agressivo, combinando riffs pesados, batidas intensas e letras que exaltam perseverança, união, identidade e resistência. Com álbuns influentes como One with the Underdogs (2004) e Keepers of the Faith (2010), a banda ajudou a revitalizar a cena hardcore mundial, mantendo viva a ética DIY e a energia crua dos shows — conhecidos pelos moshpits intensos e pela interação constante com o público.

Hardcore vive!

Antes do início oficial do evento, o Terror convidou alguns fãs a participarem da captação de imagens para o videoclipe de “Still Suffer”, single que integrará o próximo álbum da banda. O gesto reforça o respeito do grupo pelo público brasileiro, já que as gravações poderiam ter sido realizadas em qualquer outro ponto da turnê, inclusive em outros países da América do Sul.

Abrindo os trabalhos, o Dognerve apresentou um hardcore de forte influência beatdown. Com parte do público ainda chegando à casa, o grupo executou faixas como “Realidade Nua e Crua”, “Por Nós Mesmos” e “Falsa Autoridade”. Em um cenário onde muitas bandas optam pelo inglês, a escolha pelo português se destacou como elemento de identidade e renovação do hardcore nacional.

Na sequência, o Arize assumiu o palco. Apesar de ser um nome relativamente novo, a banda reúne figuras conhecidas da cena local, como Athos Santiago (Still x Strong) e Caio Turim (Clearview). Com a casa mais cheia, o público respondeu bem, agitando o moshpit em músicas como “Dark Thoughts”, “Hate Is All We Have” e “One of Your Kind Is Way Too Many”, presentes no EP Here to Stay (2024). O grupo também anunciou uma breve pausa nos shows para a gravação de um novo material, previsto para 2026, além de reforçar a importância do apoio aos eventos com bandas locais para manter a cena ativa.

Encerrando o bloco nacional, o One True Reason — um dos principais nomes do hardcore brasileiro contemporâneo — entregou um set poderoso. Além de músicas inéditas apresentadas em primeira mão, como “About to Die” e “Under the Surface”, que farão parte do próximo disco, o grupo executou faixas conhecidas como “Iron Minded” e “Bigotry”, garantindo a empolgação dos fãs mais fiéis e os primeiros stage dives da noite.

Com a casa completamente lotada, Bruno Genaro, responsável pela NDP, subiu ao palco para um breve anúncio e revelou o lineup completo do NDP Fest II, que contará com nomes como Bayside Kings, Last Warning, Eskröta, Clique, Path of Resistance e Speed. Logo em seguida, uma sonora começou a ecoar pelos alto-falantes e, sem demora, Scott Vogel (vocal), Nick Jett (bateria), Martin Stewart e Jordan Posner (guitarras) e Chris Linkovich (baixo) tomaram o palco.

O Terror abriu o set com uma dobradinha fulminante de One with the Underdogs: a faixa-título e “Spit My Rage”. Bastaram poucos segundos para que o público se lançasse nos stage dives e um moshpit gigantesco se formasse na pista. “Stick Tight” e “Return to Strength”, duas faixas essenciais de Keepers of the Faith, deram sequência à celebração, com fãs subindo ao palco para cantar ao lado de Scott ou disputando espaço nos microfones de backing vocal.

O disco mais recente, Pain Into Power (2022), também teve seu espaço, com a execução da faixa-título e do single “Can’t Help but Hate”, que conta com a participação de George “Corpsegrinder” Fisher (Cannibal Corpse). O trecho originalmente gravado pelo vocalista convidado foi assumido em coro pelo público.

Ainda assim, as verdadeiras estrelas da noite foram os clássicos absolutos do hardcore, como “Overcome”, “Lowest of the Low” e “Always the Hard Way”. Ao som dessas canções, os fãs se empurravam, pulavam do palco e cantavam a plenos pulmões. O cenário era de puro caos, sem qualquer distinção entre banda e plateia. Scott Vogel, inclusive, fazia questão de incentivar a desordem, convidando o público a participar ativamente do show. Apesar da insanidade que preenchia os olhos, o clima era de absoluto respeito, com todos unidos pela música.

Na reta final, como manda a tradição, o Terror executou “Keep Your Mouth Shut” e encerrou com “Keepers of the Faith”, acompanhada por uma invasão quase total do palco.

Em mais uma passagem por São Paulo, a banda mostrou por que segue sendo um dos gigantes do hardcore mundial: mesmo com status e reconhecimento internacional, o Terror mantém vivo o espírito do hardcore underground, entregando um espetáculo genuíno, intenso e sem barreiras entre artistas e fãs — algo raro, verdadeiro e profundamente fiel à essência do gênero.

Fotos: Raíssa Corrêa (@showww360) — credenciada pelo site “Raro Zine”, que gentilmente compartilhou seu trabalho com Heavy Metal Online

Setlist

One With the Underdogs

Spit My Rage

Stick Tight

Boundless Contempt

Return to Strength

Lowest of the Low

Always the Hard Way

Can’t Help but Hate

Pain Into Power

Overcome

You’re Caught

The 25th Hour

Keep Your Mouth Shut

Keepers of the Faith