Em 2022, durante a primeira edição brasileira do festival Knotfest, o público paulistano finalmente teve a chance de conferir ao vivo o Mr. Bungle — projeto idealizado pelo lendário Mike Patton, conhecido sobretudo por seu trabalho à frente do Faith No More. Atualmente funcionando como um verdadeiro supergrupo, a banda conta também com nomes históricos do metal, como Dave Lombardo (Slayer) e Scott Ian (Anthrax). Já em 2025, o conjunto voltou a ser anunciado no Brasil como uma das atrações de abertura da turnê Life Is But a Dream…, do Avenged Sevenfold, reacendendo o entusiasmo dos fãs.
Apesar da empolgação, parte do público sentiu falta de uma apresentação em formato headline. Afinal, o Mr. Bungle é reconhecido justamente por shows imprevisíveis, caóticos e altamente performáticos. Felizmente, a espera chegou ao fim. Na última segunda-feira (26), a produtora 30e atendeu a esse antigo desejo e organizou uma apresentação solo do supergrupo no Cine Joia, tradicional casa de shows localizada no centro da capital paulista. A noite contou ainda com a abertura do duo Test, importante nome do metal underground local.
Histórico
Formado originalmente na Califórnia no fim dos anos 1980, o Mr. Bungle é um dos projetos mais excêntricos de Mike Patton, vocalista conhecido por sua versatilidade e por romper constantemente as fronteiras do rock pesado. A banda ganhou notoriedade nos anos 1990 ao misturar, de forma caótica e irreverente, gêneros como metal, funk, ska, jazz, hardcore e música experimental, construindo uma identidade sonora imprevisível e provocadora.
Em sua fase mais recente, o projeto tem resgatado suas raízes mais extremas e agressivas, especialmente com o repertório inspirado na demo The Raging Wrath of the Easter Bunny, reafirmando sua relevância como uma banda que desafia convenções e transforma cada apresentação ao vivo em uma experiência única e fora do padrão.
Experiência geral e show
A casa abriu pontualmente às 19h para o público geral. Os primeiros fãs puderam conferir o merchandising exclusivo e foram recebidos por uma curiosa discotecagem de músicas românticas, que mais pareciam retiradas de uma playlist da rádio Alpha FM. A escolha inusitada arrancou risadas e foi encarada com bom humor pela maioria, funcionando como um aquecimento descontraído para o que estava por vir.
Por volta das 19h45, a sessão de rock alternativo começou com o set do duo Test, projeto formado por João Kombi (guitarra e vocal) e Barata (bateria), que ganhou certa notoriedade na cena paulistana nos anos 2010 ao realizar shows improvisados dentro de uma kombi nas ruas em dias de apresentações de bandas como Slayer, D.R.I. e outros nomes gigantes do metal mundial. Com uma sonoridade extremamente experimental, flertando com o grindcore e o death metal, a dupla conquistou o público com uma performance intensa e visceral. O grande destaque foi o baterista Barata, que alternava entre batidas frenéticas, blast beats explosivos e momentos de relativa calmaria, utilizando pausas estratégicas ao longo das músicas. Embora não fosse a atração mais alinhada à atração principal da noite, o Test foi recebido com atenção e respeito.

Ao término do set, o Cine Joia já estava completamente lotado. Até mesmo integrantes do Avenged Sevenfold apareceram e acompanharam a apresentação do mezanino. Após uma breve pausa para troca de equipamentos e ajustes no palco — novamente embalada pela trilha romântica — , Mike Patton (vocal), Trey Spruance (guitarra solo), Trevor Dunn (baixo), Scott Ian (guitarra base) e Dave Lombardo (bateria) surgiram no palco e abriram o show com um inesperado cover de “Tuyo”, de Rodrigo Amarante, eternizada na trilha sonora da série Narcos. A brincadeira deu lugar ao instrumental de “Grizzly Adams”, que serviu como introdução para a explosão de thrash metal com “Anarchy Up Your Anus” e “Bungle Grind”.

Lombardo demonstrava estar em plena forma, despejando skank beats em velocidade absurda, enquanto Trey disparava solos alucinantes e Patton dominava o espetáculo, correndo pelo palco e manipulando efeitos vocais em sua mesa repleta de processadores. Após a dobradinha inicial, o grupo surpreendeu ao desacelerar com um cover de “I’m Not in Love”, do 10cc, colocando o público no clima da piada interna que é um show do Mr. Bungle.
A calmaria, porém, durou pouco: logo o moshpit voltou com força total com “Eracist” e “Spreading the Thighs of Death”, ambas do álbum The Raging Wrath of the Easter Bunny. Próximo ao meio do set, a banda ainda fez uma divertida passagem por clássicos do punk e do crossover, como “State Oppression” (Raw Power), “USA” (The Exploited) e “Speak English or Die” (S.O.D.), cuja letra foi adaptada para “Fala português ou morre”.
Quando se fala em Mr. Bungle, é comum associar o espetáculo à figura caótica de Mike Patton, mas o nível técnico do grupo como um todo é impressionante. Lombardo, um dos bateristas mais icônicos do metal, segue despejando viradas impossíveis com precisão cirúrgica. Trey Spruance é um verdadeiro monstro do shredding, enquanto Scott Ian, mais discreto em cena, sustenta riffs sólidos e precisos que dão corpo ao caos sonoro. Trata-se, sem exagero, de um supergrupo em plena forma.

Na reta final, o conjunto resgatou faixas autorais como “Raping Your Mind”, “My Ass Is on Fire” e “Sudden Death”. Para agradar o público brasileiro, emendaram um cover de “Refuse/Resist”, do Sepultura, com o refrão pontuado por um entusiasmado “porra, caralho!”. Após mais de uma hora de thrash metal veloz e imprevisível, a noite foi encerrada com “All By Myself”, de Eric Carmen, reinterpretada com palavrões em português adicionados à letra.
Sem dúvida, o Mr. Bungle se mostra como um dos nomes mais autênticos e imprevisíveis do rock pesado. A genialidade de Patton, aliada à competência técnica de Lombardo, Spruance, Ian e Dunn, resulta em um espetáculo que equilibra agressividade, humor e virtuosismo.
Fotos: Ian Rassari (@ianrassari) — fornecidas pela assessoria 30e










Setlist
Tuyo
Grizzly Adams
Anarchy Up Your Anus
Bungle Grind
I’m Not in Love
Eracist
Spreading the Thighs of Death
Retrovertigo
State Oppression
Hypocrites / Speak English or Die
Glutton for Punishment
USA
Raping Your Mind
Hopelessly Devoted to You
My Ass Is on Fire
Sudden Death
Refuse/Resist
All by Myself
