Ao longo das últimas décadas, o screamo consolidou-se como um dos segmentos mais relevantes do rock contemporâneo. Ao lado do metalcore e do djent, pode ser considerado uma das vertentes mais impactantes da música pesada no século XXI. Desde meados dos anos 2000, nomes associados ao gênero — como A Day to Remember, The Used, Black Veil Brides e Underoath — passaram a reunir centenas de milhares de fãs, venderam milhares de discos e hoje acumulam milhões de reproduções nas plataformas de streaming, além de lotarem casas de espetáculo, arenas e até estádios ao redor do mundo.
Entretanto, a origem do screamo guarda pouca relação com essa vertente mais popular e acessível, marcada pela fusão entre vocais rasgados, melodias cativantes e estruturas convencionais. O estilo surgiu no início dos anos 1990, nos Estados Unidos, como uma ramificação mais emocional e extrema do hardcore punk, profundamente ligada à cena do emocore (emotional hardcore) de Washington, D.C., e posteriormente da Califórnia. Essa primeira fase priorizava intensidade máxima, gritos desesperados e letras confessionais. Entre os principais nomes do período estão Heroin, Antioch Arrow, Saetia, Pg.99 e, claro, o Orchid — um dos grupos mais aclamados e influentes dessa cena.
Formado em 1997, na cidade de Amherst, Massachusetts, o Orchid levou ao limite a herança do hardcore punk e do emocore, combinando velocidade vertiginosa, estruturas caóticas e vocais dilacerantes. O resultado era um som urgente, agressivo e profundamente emocional. Diferentemente de bandas que apostavam em melodias ou refrões marcantes, o grupo priorizava o impacto cru: músicas curtas, explosivas e quase sufocantes. Apesar de uma carreira breve — encerrada oficialmente em 2002, após o lançamento de apenas três discos — , o Orchid tornou-se um nome cultuado dentro do underground.
Em 2024, após 22 anos de hiato, a banda retornou às atividades. Durante muito tempo, uma apresentação do grupo em São Paulo parecia apenas um sonho distante, até que a produtora NDP transformou o desejo em realidade. No último sábado (24), o lendário conjunto se apresentou no tradicional Hangar 110. As bandas Magnólia e Uniform completaram a programação da noite, que também integrou uma turnê sul-americana com datas em Santiago e Buenos Aires.
Experiência geral e shows
A expectativa para o evento era simplesmente insana. Mais de uma hora antes da abertura oficial da casa, fãs já formavam uma fila gigantesca que ocupava boa parte da Rua Rodolfo Miranda e se estendia por vias adjacentes. Apesar de o Orchid ter encerrado suas atividades há mais de duas décadas, chamou atenção a expressiva presença de fãs mais jovens — muitos dos quais sequer eram nascidos quando a banda ainda estava em atividade. Também impressionava a diversidade de tribos urbanas reunidas no local: emos, otakus, headbangers e indies dividiam o mesmo espaço, evidenciando o alcance transgeracional do grupo. Conversando com alguns presentes, foi comum ouvir relatos de fãs que descobriram o Orchid recentemente, sobretudo por meio do TikTok, onde a banda costuma ser associada ao grupo I Hate Sex, bastante popular entre o público adolescente.
Com a liberação da entrada, a banda paulistana Magnólia deu início à noite. Representantes da nova geração do screamo nacional, o grupo apresentou uma sonoridade consistente, alternando passagens delicadas com explosões intensas nos gritos da vocalista Caru Frascaroli. A apresentação foi acompanhada com devoção pelo público, que cantou junto faixas como “Andorinha”, “Mágoas do Circo” e “Pais de Pipo”, evidenciando a conexão entre banda e plateia.

Na sequência, foi a vez do duo nova-iorquino Uniform subir ao palco. Formado pelo vocalista Michael Berdan e pelo guitarrista Ben Greenberg, o projeto dispensa bateria e baixo, utilizando bases pré-gravadas para sustentar a sonoridade. Com músicas como “Tabloid”, “The Light at the End (Cause)” e “Night of Fear”, a dupla apresentou um som que transita entre o punk industrial e a música experimental, marcado por vocais processados e batidas eletrônicas agressivas. Mesmo com o braço quebrado, Berdan manteve uma performance intensa e carismática, aproveitando os intervalos para criticar duramente as recentes posturas radicais do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos).

Após uma breve pausa para a montagem dos instrumentos, a espera de décadas finalmente chegou ao fim. Jayson Green (vocal), Will Killingsworth (guitarra), Jeffrey Salane (bateria), Brad Wallace (guitarra) e Geoff Garlock (baixo) surgiram no palco ao som da introdução de “Le Désordre, C’est Moi”, faixa que abre o clássico Chaos Is Me (1999). Logo nos primeiros acordes, um verdadeiro pandemônio tomou conta do Hangar 110, com dezenas de fãs se jogando do palco e agitando o moshpit. O show seguiu com um repertório extenso de 26 músicas — em sua maioria curtas, porém extremamente intensas. O setlist foi bem equilibrado, contemplando faixas dos álbuns Chaos Is Me (1999), Dance Tonight! Revolution Tomorrow! (2000) e Gatefold (2002), com cerca de oito músicas de cada trabalho.

Durante toda a apresentação, a energia do público foi incansável. Fãs subiam ao palco, dividiam o microfone e se lançavam no moshpit, enquanto Jayson Green, mesmo demonstrando certa contenção para compartilhar o vocal com a plateia, mantinha o controle do caos. Entre as canções, o vocalista fez críticas contundentes ao capitalismo, apontando crises de saúde mental, criminalidade e abuso de drogas como reflexos diretos desse modelo econômico. Também houve espaço para críticas à postura intervencionista do governo dos Estados Unidos, tema introduzido antes da execução de “Invasion U.S.A.”. O momento reforçou o caráter politizado do screamo em suas origens, profundamente ligado à ética do hardcore punk.
Na reta final, o Orchid emendou uma sequência devastadora de faixas marcantes de Dance Tonight! Revolution Tomorrow!, como “Anna Karina”, “…And the Cat Turned to Smoke” e “I Am Nietzsche” — esta última recebida como um verdadeiro hino, acompanhada por uma quase invasão total do palco.

O Orchid segue sendo uma banda profundamente impactante, cuja mensagem atravessa gerações. Em tempos marcados por ameaças autoritárias, crises de saúde mental generalizadas e a ausência de perspectivas reais de mobilidade social, a música gritada reafirma seu papel como uma forma legítima, necessária e urgente de manifestação cultural.
Fotos: Flávio Santiago (Credenciado pelo portal On Stage, que gentilmente compartilhou seu trabalho)























Magnólia
lobo
andorinha perdida
peta, o último bixinho
camaleão
as mágoas do circo
os pais de pipo
ainda vai passar, peixinho
então a lebre vomita seu próprio coração
Uniform
Tabloid
Habit
The Light at the End (Cause)
The Killing of America
Bootlicker
Night of Fear
The Light at the End (Effect)
Symptom of the Universe
Orchid
Le Désordre, C’est Moi
Aesthetic Dialectic
Lights Out
A Visit From Dr. Goodsex
Destination: Blood!
The Action Index
Don’t Rat Out Your Friends
Loft Party
I Wanna Fight
Framecode
Epilogue of a Car Crash
Ding Dong Dead
Invasion U.S.A.
Tigers
Weekend at the Fire Academy
Trail of the Unknown Body
New Ideas in Mathematics
Death of a Modernist
We Love Prison
Eye Gouger
None More Black
Amherst Pandemonium (Part 1)
Amherst Pandemonium (Part 2)
She Has a Cold, Cold Heart
New Jersey vs. Valhalla
Anna Karina
I Am Nietzsche
…And the Cat Turned to Smoke
