Algumas bandas desenvolvem uma relação especial com o Brasil. Mesmo após inúmeras passagens pelo país, continuam a atrair um público fiel, conquistar novos fãs e se apresentar em casas cada vez maiores — ou, no mínimo, manter o mesmo nível de relevância ao longo dos anos. Entre esses casos está o Symphony X, um dos nomes mais importantes do metal progressivo mundial. Desde a retomada dos eventos presenciais no pós-pandemia, o grupo tem incluído o Brasil com frequência em suas turnês, seja em grandes festivais, como o Monsters of Rock de 2023, ou em apresentações solo. No entanto, o conjunto já vem se apresentando por aqui desde a década de 1990.
Pouco menos de dois anos após sua última passagem, a banda retornou à cidade de São Paulo para um show no Tokio Marine Hall — mesma casa que recebeu suas duas apresentações anteriores na capital. Desta vez, o grupo trouxe um repertório especial em celebração aos 30 anos de carreira. A excursão, organizada pela Top Link Music, também passou por cidades como Curitiba e Rio de Janeiro, além de outras capitais de países da américa latina, incluindo Buenos Aires, Bogotá, Cidade do México, Montevidéu e Santiago.
Para abrir a noite, veio o talentoso guitarrista colombiano-americano Andy Addams, um dos grandes representantes latinos do instrumento na atualidade. Parte do público já estava familiarizada com seu trabalho, especialmente após sua participação no show de Kiko Loureiro e Marty Friedman no ano passado. Com um visual futurista e chamativo — vestindo uma roupa iluminada por LEDs — , Addams e sua banda impressionaram desde os primeiros acordes, combinando técnica apurada, presença de palco e carisma.
Acompanhado pelos músicos Elizabeth Schembri (baixo) e Chucho Romus (baixo), o guitarrista apresentou faixas de seu trabalho mais recente, The Eyes of the Moon Pt. 1, além de singles como “Everlasting Faith” e “Piedra de Fuego”, marcados por alto nível técnico e forte inclinação à experimentação instrumental.
Para encerrar a apresentação em grande estilo — repetindo a fórmula de sua última passagem pelo Tokio Marine Hall — , Addams entregou um mashup instrumental que mesclou “Separate Ways”, do Journey, “Under a Glass Moon”, do Dream Theater, além de trechos das aberturas dos animes Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z. Ao deixar o palco, foi surpreendido pelo público, que puxou um coro de “Parabéns pra você”, já que o músico celebrava seu aniversário na data.
Após um breve intervalo para ajustes de palco e troca de instrumentos, uma sonora passou a ecoar pelos alto-falantes da casa, enquanto uma animação exibindo as capas de todos os lançamentos do grupo era exibida no telão. Em seguida, Russell Allen (vocal), Michael Romeo (guitarra), Michael Pinnella (teclado), Jason Rullo (bateria) e Michael LePond (baixo) tomaram o palco e deram início ao set com “Of Sins and Shadows”, do clássico The Divine Wings of Tragedy (1997). A faixa, marcada por peso intenso e passagens que transitam entre o thrash e o metal progressivo, já colocou o público em sintonia, com os músicos incentivando participação generalizada. Na sequência, “Sea of Lies”, também do mesmo disco, manteve a intensidade. O baixista Michael LePond avançou à frente do palco para executar a poderosa introdução da música, que logo evoluiu para riffs velozes e bateria com pedal duplo, levando a plateia a responder em coro. Em contraste, a canção também apresentou momentos mais cadenciados, evidenciando a habilidade da banda em alternar dinâmicas e mudanças de tempo com naturalidade. O encerramento ficou por conta de um solo afiado de Michael Romeo, executado com precisão impressionante mesmo em alta velocidade. Já em “Out of the Ashes”, o guitarrista voltou a se destacar com uma introdução baseada em arpejos, reforçando o virtuosismo técnico que é marca registrada do grupo. A combinação entre teclados e bases orquestrais pré-gravadas conferiu à apresentação uma atmosfera grandiosa, aproximando-se de elementos da música erudita e revelando influências que ecoam até mesmo em bandas posteriores, como o Versailles.

Para encerrar o bloco dedicado ao álbum de 1997, a escolhida foi “The Accolade”, trazendo uma atmosfera mais contemplativa, com forte presença de teclados e referências medievais. Com seus mais de nove minutos de duração, a faixa conduziu o público por uma verdadeira jornada sonora.
Na sequência, o repertório avançou para Twilight in Olympus com “Smoke and Mirrors”, retomando a agressividade do prog metal com riffs pesados e andamento acelerado. Aqui, os solos de teclado e guitarra se entrelaçaram de forma quase simbiótica. Em seguida, “Evolution (The Grand Design)”, do álbum V: The New Mythology Suite, manteve o peso elevado, com destaque para o riff denso e a bateria de pedal duplo, enquanto Russell Allen conduzia o público como um maestro durante o refrão.
Ainda explorando a fase dos anos 2000, “Communion and the Oracle” trouxe um momento mais melódico e acessível, com maior presença de teclados e violões, sem perder o impacto característico da banda. Após essa breve desaceleração, o grupo retomou a intensidade com “Inferno (Unleash the Fire)”, de The Odyssey, e “Nevermore”, do álbum Underworld, reafirmando o peso e a potência que marcam sua trajetória.

Após uma breve pausa, os integrantes retornaram ao palco para o momento do bis. Em uma rápida interação com o público, Russell Allen agradeceu o apoio ao longo dos 30 anos de carreira, perguntou quem já havia assistido à banda anteriormente e quem estava tendo ali o primeiro contato ao vivo. O vocalista também mencionou o Lollapalooza, que acontecia simultaneamente na cidade — comentário que foi recebido com vaias imediatas por parte da plateia. Em tom bem-humorado, Allen respondeu: “Com um evento desse tamanho acontecendo e vocês estarem aqui, isso prova que o heavy metal é forte em São Paulo”.
Na sequência, o Symphony X iniciou o encore com três faixas marcantes de sua trajetória. A balada “Without You”, do álbum Underworld, trouxe um momento mais emotivo, enquanto “Dehumanized”, de Iconoclast, apresentou uma sonoridade mais moderna e agressiva. Encerrando a noite, “Set the World on Fire (The Lie of Lies)”, de Paradise Lost, evidenciou toda a complexidade e o virtuosismo técnico do grupo, com cada integrante tendo espaço para brilhar.
Por se tratar de uma turnê comemorativa de 30 anos, era esperado um passeio mais abrangente por toda a discografia. No entanto, álbuns como Symphony X (1994) e The Damnation Game (1995) acabaram ficando de fora do repertório, enquanto The Divine Wings of Tragedy recebeu atenção mais concentrada. Ainda assim, o Symphony X demonstrou, mais uma vez, um nível de profissionalismo ímpar dentro do prog metal. Do outro lado, o público respondeu à altura, cantando em uníssono músicas de diferentes fases da carreira com entusiasmo constante — uma prova clara de que a banda segue mais do que bem-vinda em solo paulistano.
Fotos: Anderson Hildebrando

















Setlist
Of Sins and Shadows
Sea of Lies
Out of the Ashes
The Accolade
Smoke and Mirrors
Evolution (The Grand Design)
Communion and the Oracle
Inferno (Unleash the Fire)
Nevermore
Bis
Without You
Dehumanized
Set the World on Fire (The Lie of Lies)
