Com clássicos e novidades, Katatonia comprova sua força em apresentação em São Paulo

A ascensão do Katatonia junto ao público headbanger brasileiro nos últimos anos chama a atenção. Quando a banda se apresentou pela primeira vez no país, o show ocorreu no Hangar 110, tradicional reduto do punk rock paulistano, e contou com público moderado. Pouco tempo depois, o grupo retornou para participar de festivais, como o Overload Music Fest, em 2016. Já em passagens mais recentes, passou a se apresentar em casas de médio porte, como o Carioca Club, espaço consolidado como um dos principais pontos de encontro dos fãs de metal na capital.

Após quase dois anos desde sua última visita, o conjunto sueco retornou à cidade de São Paulo para divulgar Nightmares as Extensions of the Waking State, décimo terceiro álbum de estúdio. A turnê acontece em um momento delicado da trajetória da banda, marcado pela saída recente do guitarrista Anders Nyström, membro fundador e peça fundamental na construção de sua identidade sonora. O show aconteceu no último sábado (21), no Cine Joia, um dos principais espaços alternativos da cidade, reforçando de forma nítida o crescimento do grupo e sua capacidade de manter uma fiel base de seguidores.

Mesmo com diversos eventos de rock e metal acontecendo em São Paulo na mesma data — incluindo shows de Kadavar e Tihuana, além do Lollapalooza, que contava com nomes como Cypress Hill, The Warning e Hurricanes — , o público marcou presença com força. Antes mesmo da abertura dos portões, já era possível ver fãs circulando pelo bairro da Liberdade vestindo camisetas da banda e de outros grupos que haviam passado recentemente pela cidade, como VOLA, Leprous e The Fall of Troy.

Abrindo a noite, subiu ao palco Jéssica Falchi com seu projeto instrumental Falchi. Conhecida por sua passagem pela Crypta, um dos grandes nomes recentes do metal nacional, a guitarrista apresentou um set animado, baseado no EP Solace, lançado no início do ano. No repertório, estiveram presentes faixas como “Moonlace”, “Sweetchasm, Pt. 1”, “Sunflare” e “Sweetchasm, Pt. 2”, além de um cover de “The Call of Ktulu”, do Metallica. Com bases bem construídas e execução técnica precisa, a apresentação conquistou o público, que respondeu com entusiasmo — incluindo um momento em que lanternas de celulares iluminaram o ambiente em resposta ao desempenho da banda. Com este novo passo na carreira, Jéssica reafirmou não apenas seu talento, mas também sua versatilidade ao transitar com naturalidade entre passagens mais pesadas e trechos atmosféricos.

Após uma breve pausa para ajustes de palco, o público foi ambientado por uma seleção de faixas do Morbid Angel. Pontualmente às 20h15, Jonas Renkse (vocal), Niklas Sandin (baixo), Daniel Moilanen (bateria), Nico Elgstrand e Sebastian Svalland (guitarras) subiram ao palco e começaram o set com “Thrice”, faixa do novo álbum, marcada por andamento mais lento, guitarras trabalhadas e presença de breakdowns.

Sem dar espaço para respiro, os suecos engataram “Soil’s Song”, clássico de The Great Cold Distance, levando o público a cantar em coro. Na sequência, “The Liquid Eye”, também do material recente, trouxe uma atmosfera mais próxima do doom metal, mas ainda assim manteve a plateia envolvida. “Austerity”, de Sky Void of Stars, reforçou o peso com guitarras densas, enquanto “Rein” apresentou um riff hipnótico de pegada quase psicodélica, além de um dos solos mais marcantes da noite e bateria repleta de viradas. Já “Leaders” e “Dead Letters” vieram com riffs mais diretos e energéticos — ideais para um moshpit que, curiosamente, não se formou.

Em um momento de interação, Jonas Renkse comentou: “Se você gosta de doom metal, essa é a sua hora”, logo após engatilhando “Nephilim”, com seu andamento arrastado e presença de vocais guturais. Em seguida, “Wind of No Change” trouxe uma introdução marcante de baixo, que rapidamente puxou o público para acompanhar em coro.

“The Longest Year” protagonizou um dos momentos mais intensos de interação da noite, com Jonas iniciando sozinho e sendo acompanhado em peso pela plateia. O clima seguiu elevado em “Old Heart Falls”, com o público cantando junto em sintonia com as guitarras. Já “July”, uma das faixas mais conhecidas da banda, manteve o envolvimento mesmo com seu peso mais acentuado — incluindo um momento de headbanging sincronizado entre os integrantes.

Na reta final, o grupo apresentou uma seleção que percorreu diferentes fases da carreira, com “Lethean”, “No Beacon to Illuminate Our Fall” e “In the Event Of”, esta última do novo álbum e escolhida para encerrar o set principal. Para o bis, a escolhida foi “Forsaker”, fechando a noite em alta.

Sem dúvidas, Katatonia entregou uma apresentação memorável. Um dos pontos mais positivos da noite foi a maior presença de iluminação — um contraste em relação ao padrão da banda, conhecida por shows propositalmente mais escuros, o que costuma dificultar inclusive o trabalho dos fotógrafos. Dessa vez, a ambientação visual contribuiu para valorizar ainda mais a experiência ao vivo, explorando com precisão os recursos do Cine Joia. O repertório mostrou-se extremamente bem equilibrado, combinando composições mais recentes com clássicos indispensáveis da carreira, sem soar previsível. Ainda que seja difícil ignorar a ausência de Anders Nyström no palco, os guitarristas Nico Elgstrand e Sebastian Svalland cumpriram o papel com segurança, entregando performances técnicas e energéticas, além de demonstrarem boa interação com o público. Em sua quinta passagem por São Paulo, o Katatonia reafirmou os motivos que o levaram a conquistar uma base sólida de fãs no Brasil — e deixou claro que ainda há espaço para crescer e alcançar públicos ainda maiores.

Fotos: Tamires Lopes (credenciada pelo site Headbangers News)

Setlist

Thrice

Soil’s Song

The Liquid Eye

Austerity

Rein

Leaders

Dead Letters

Nephilim

Wind of No Change

The Longest Year

Old Heart Falls

July

Lethean

No Beacon to Illuminate Our Fall

In the Event Of

Bis

Forsaker