A banda gaúcha Cachorro Grande se consolidou como um dos nomes mais importantes do rock brasileiro dos anos 2000. Em uma época em que emo, pop punk e hardcore melódico dominavam as paradas e os canais de TV, o grupo foi na contramão ao apostar em uma sonoridade fortemente influenciada pelo rock clássico, com ecos de The Beatles, The Rolling Stones e The Who, além de uma estética ligada ao movimento mod. Rapidamente, chamou atenção pela atitude crua, guitarras marcantes e apresentações ao vivo intensas, que ajudaram a construir uma base fiel de fãs pelo país. A tentativa de revival do rock n’ roll das décadas de 1960 e 1970 se mostrou bem-sucedida: videoclipes como “Sinceramente”, “Lunático” e “Bom Brasileiro” dividiram espaço com músicas e produções voltadas ao pop em plataformas mainstream. Além disso, lançou trabalhos pela Deckdisc e conquistou reconhecimento ao vencer o MTV Video Music Brasil 2007.
No entanto, mesmo com o sucesso, turnês extensas e a oportunidade de abrir shows para nomes internacionais como The Rolling Stones, Oasis e Aerosmith, a trajetória do grupo foi marcada por conflitos internos e mudanças de formação, culminando no encerramento das atividades em 2019. Porém, para a felicidade dos fãs, o conjunto vem retornando aos poucos suas atividades. Em 2025, realizou um show lotado no Carioca Club, além de participações em alguns festivais. Já na última sexta-feira (17), a banda voltou à cidade com um repertório especial em comemoração aos 26 anos de carreira. O evento aconteceu no Cine Joia, casa de espetáculos localizada no bairro da Liberdade e aclamada pelo público alternativo.
Para a abertura do evento, foi escalado o jovem Matheus Torres, que ganhou reconhecimento recente ao participar do programa “Estrela da Casa” — uma espécie de reality show musical da idealizado pela Rede Globo. Em um set enxuto, o artista apresentou canções de seu recém-lançado disco Tanta Pressa, como “Sonho de Papel”, “Pra Fazer Saber” e “Se Você Soubesse”.

A sonoridade caminhou pelo pop rock alternativo nacional com forte influência dos anos 1980, evocando, em alguns momentos, nomes como Skank, Legião Urbana e Djavan. Embora distante da fúria e da visceralidade da atração principal, o repertório foi recebido com respeito e atenção.
Então, com a casa completamente lotada, Beto Bruno (vocal), Marcelo Gross (guitarra), Gabriel Azambuja (bateria), Eduardo Barreto (baixo) e Pedro Pelotas (teclados) subiram ao palco e abriram o show com “Você Não Sabe o Que Perdeu”. A escolha não poderia ter sido mais certeira: uma faixa explosiva, quase física em seu impacto, que já deixou claro, desde os primeiros acordes, que a Cachorro Grande ainda tinha muito a entregar. Sem economizar energia, o grupo partiu direto para um de seus grandes hits, estabelecendo o tom de uma apresentação que celebraria, com intensidade, mais de duas décadas de estrada.
Como esperado de um show comemorativo, a banda percorreu diferentes fases da carreira, revisitando discos como As Próximas Horas Serão Muito Boas, Pista Livre, Todos os Tempos e Baixo Augusta. O repertório funcionou como um verdadeiro panorama da trajetória do grupo, levando o público a cantar em coro faixas que marcaram o rock nacional dos anos 2000, como “Hey Amigo!”, “Bom Brasileiro”, “A Alegria Voltou” e “Lili”.

Chamava atenção a naturalidade com que os gaúchos conduziam o espetáculo. Beto Bruno, em especial, parecia completamente à vontade — como se estivesse na sala de casa — , circulando pelo palco com uma garrafa de vinho, dançando, se jogando no chão e interagindo com o público de forma espontânea. Já nos momentos finais, sua performance indicava um estado ainda mais solto, o que, longe de comprometer, reforçava o espírito caótico e autêntico do show. Marcelo Gross, por sua vez, exibiu grande domínio técnico, estendendo solos além das versões de estúdio para amplificar a energia ao vivo. Em vários momentos, aproximou-se da beira do palco, estreitando a conexão com o público, e também ganhou destaque ao assumir os vocais em “Dia Perfeito”.

Diferentemente do que costuma ocorrer em muitas bandas, a bateria teve papel de protagonismo. Gabriel Azambuja foi peça central na dinâmica do show, não apenas sustentando o peso rítmico, mas também assumindo os vocais em “A Alegria Voltou” e “Velha Amiga”. Esse equilíbrio entre os integrantes evidencia a força coletiva da Cachorro Grande ao vivo: não há um único foco, mas sim um conjunto coeso em que cada músico encontra seu momento de destaque.
Na pista, a resposta do público foi intensa do início ao fim, com coro constante, pedidos de músicas e interação direta com as provocações de Beto. Na reta final, porém, veio o ápice da apresentação, com a sequência de “Sinceramente” — que contou com a participação de Matheus Torres — , “Sexperienced” e “Lunático”. Para os mais jovens, foi a chance de vivenciar ao vivo clássicos que atravessaram gerações; para os fãs antigos, um mergulho nostálgico, quase como reviver o ritual de chegar em casa, ligar a TV e assistir aos clipes na MTV. Sem dúvidas, foi um bloco de beleza ímpar.

Ao fim, fica evidente que a Cachorro Grande continua entregando um espetáculo singular. É como se o tempo pouco tivesse afetado sua essência: mais de duas décadas após o auge, o grupo ainda canaliza a mesma energia visceral dos tempos de rock’n’roll nos clubes da Rua Augusta. Não por acaso, o público deixou o local com a sensação de que o evento não foi apenas comemorativo, mas sim um sinal concreto de retorno — e, quem sabe, de um novo capítulo para a banda.
Fotos: Gil Oliveira










































Setlist
Você não sabe o que perdeu
Hey amigo!
Desentoa
As próximas horas serão muito boas
Bom brasileiro
A alegria voltou
Velha amiga
Roda-gigante
Debaixo do chapéu
O que você tem?
Dia perfeito
Lili
Vai T. Q. dá
Sinceramente
Sexperienced
Você não sabe o que perdeu
Lunático
