Party On Wacken 2026: representantes do metal nacional mostram a força da música extrema no Brasil

Realizado anualmente na pequena cidade de Wacken, o Wacken Open Air é, há décadas, um dos eventos mais importantes do cenário global do heavy metal. Criado em 1990, o festival se consolidou como um verdadeiro ponto de encontro para fãs de música pesada vindos de todas as partes do mundo.

Com o passar dos anos, o Wacken ultrapassou a condição de simples festival e se firmou como uma autêntica celebração da cultura do metal. Durante alguns dias, milhares de pessoas compartilham não apenas apresentações de bandas consagradas e novas promessas do gênero, mas também uma experiência coletiva única. A atmosfera é um espetáculo à parte: palcos grandiosos, áreas temáticas, atividades interativas e o já tradicional “mar de lama” — resultado das chuvas frequentes do verão europeu — ajudam a construir uma identidade própria, marcada pelo espírito de resistência e camaradagem. Para muitos, participar do Wacken é um verdadeiro rito de passagem.

Em 2026, o festival celebra seus 35 anos de história e dedicação ao heavy metal com uma proposta especial: o Party On Wacken, um megaevento global que leva o espírito do festival a 35 países, reunindo bandas locais em apresentações simultâneas ao redor do mundo. O Brasil, reconhecido como um dos mercados mais apaixonados e relevantes do universo headbanger, não poderia ficar de fora da celebração.

A edição brasileira do Party On Wacken 2026 aconteceu em São Paulo, no palco da Audio, reunindo nomes de peso do metal extremo nacional. O lineup destacou bandas como The Mist, The Troops of Doom, Korzus e Krisiun, evidenciando a força e a relevância da cena brasileira dentro do cenário internacional.

Experiencia geral

Ao longo da semana que antecedeu o evento, vídeos promocionais com representantes dos países participantes foram divulgados nas redes sociais. Um aspecto que chamou atenção foi a disparidade estrutural entre as cenas locais: em alguns países, os shows ocorreriam em pequenos clubes, com infraestrutura bastante limitada. No Brasil, porém, o cenário foi mais animador. A Audio, escolhida para sediar o evento, ofereceu excelente qualidade de som, uma área externa confortável e telões de LED que enriqueceram a experiência visual dos sets. Esse contraste evidencia que, apesar das dificuldades, da indiferença da grande mídia e do preconceito de certos setores da sociedade, o heavy metal segue forte no país, sustentado por uma base fiel de fãs que mantém sua relevância.

A noite teve início com o The Mist, grupo tradicional de Minas Gerais — um dos principais berços do metal nacional. Após um período de hiato, a banda retornou com o elogiado álbum The Dark Side of the Soul, considerado um dos grandes lançamentos recentes da música extrema brasileira. No palco, o repertório equilibrou faixas do novo trabalho com clássicos como “The Tempest”, “The Enemy” e “My Inner Monster”. À frente da banda, Vladimir Korg, único integrante original, demonstrou energia e presença de palco impressionantes, interagindo com o público e incorporando um certo tom teatral à performance. Nas guitarras, Wesley Ribeiro e Thiago Oliveira exibiram técnica e precisão, enquanto Riccardo Linassi se destacou com uma execução poderosa, marcada por viradas intensas e domínio impecável da técnica de bumbo duplo. Nos telões, imagens sombrias inspiradas na estética do álbum reforçavam a atmosfera densa do show.

Após o impacto do thrash metal do The Mist, o público foi presenteado com o peso do death metal old school com o The Troops of Doom. O grupo conta com um lineup de peso, liderado por Jairo Guedz — também conhecido como “Tormentor” — , ex-integrante do Sepultura em sua fase inicial. Formada em 2020, durante a pandemia, a banda rapidamente conquistou espaço na cena pela sonoridade brutal e consistente.

O setlist percorreu diferentes momentos da discografia do grupo, com faixas como “Act I — The Devil’s Tail”, “Far from Your God”, “The Rise of Heresy” e “Dethroned Messiah”. Durante a apresentação, o vocalista Alex Kafer incentivava a intensidade do mosh pit com uma postura agressiva, quase como se estivesse intimidando a galera, enquanto Jairo Guedz permanecia mais contido, concentrado em despejar riffs densos e pesados. Como esperado, o repertório também trouxe homenagens à fase clássica do death/thrash do Sepultura, com músicas como “Bestial Devastation”, “Morbid Visions” e, claro, “Troops of Doom”. Entre o público, a presença de Paulo Xisto — ainda integrante do Sepultura — chamou atenção, acompanhando de perto o trabalho do antigo colega de banda.

Na sequência, foi a vez do Korzus subir ao palco. Certamente, era uma das apresentações que carregavam grande expectativa por parte do público. O motivo era claro: o clássico grupo do thrash paulistano apresentaria oficialmente sua nova formação, agora com Jean Patton efetivado após um período como substituto e Jéssica Falchi — ex-integrante da Crypta — assumindo as guitarras.

O setlist percorreu diferentes fases da carreira de mais de quatro décadas da banda, mesclando músicas em inglês e português, como “Guilty Silence”, “Truth”, “Agony”, “Vampiro” e “Guerreiros do Metal”. Um dos momentos mais marcantes foi a execução inédita do single “No Light Within”, primeiro lançamento com a nova formação, que já conta com videoclipe disponível online.

No palco, o entrosamento chamou atenção. A banda soou coesa e segura, como se os integrantes já tocassem juntos há anos. Jéssica Falchi se destacou com um estilo próprio e marcante, assumindo protagonismo em diversos momentos do show. Marcelo Pompeu segue como um dos grandes frontmen do metal nacional: prestes a completar 60 anos, mantém uma energia impressionante, correndo pelo palco, interagindo com o público e conduzindo a apresentação com carisma e intensidade.

Entre os destaques, houve ainda a participação especial de Mayara Puertas em “Discipline of Hate”, além de uma homenagem bacana ao legado do conjunto durante “Never Die”, quando imagens de apresentações históricas da banda, tanto na televisão quanto ao vivo, foram exibidas nos telões.

Para encerrar a noite, veio Krisiun, trio gaúcho formado no início da década de 1990 e um dos nomes responsáveis por elevar o reconhecimento do death metal brasileiro a um nível internacional. A apresentação funcionou como uma verdadeira retrospectiva de mais de três décadas de carreira, com um setlist que equilibrou clássicos e faixas mais recentes. Músicas como “Vicious Wrath” (AssassiNation), “Serpent Messiah” (Mortem Solis), “Scourge of the Enthroned” e “Necronomical” marcaram presença, além de canções amplamente conhecidas pelos fãs, como “Blood of Lions”, “Kings of Killing” e “Black Force Domain” — responsável por fechar o repertório.

No palco, o Krisiun reafirma sua reputação como uma máquina de precisão e brutalidade. Alex Camargo impressiona com vocais guturais intensos enquanto executa linhas de baixo complexas em alta velocidade. Além da performance técnica, mostrou-se bastante comunicativo, destacando o orgulho de suas origens e refletindo sobre os desafios de manter uma banda de death metal ativa por tanto tempo. Em um momento mais polêmico, fez críticas a influenciadores da cena headbanger, classificados por ele como “playboys”, em uma fala que soou como indireta, ainda que sem alvos explícitos.

Moyses Kolesne também se destacou, exibindo domínio absoluto da guitarra ao alternar entre riffs velozes, passagens técnicas e solos extremamente precisos. Já Max Kolesne entregou uma performance avassaladora, combinando blast beats, viradas complexas e um uso criativo do kit, com múltiplos tons e pratos que ampliaram a dinâmica do show. Mesmo que, em alguns momentos, os padrões rítmicos soassem levemente repetitivos, a execução impecável manteve a apresentação intensa do início ao fim. Como diferencial, o set ainda contou com solos de bateria e guitarra — algo relativamente raro em shows do segmento death metal.

Mais do que uma celebração dos 35 anos do Wacken Open Air, o Party On Wacken 2026 se consolidou como uma demonstração global da força do heavy metal. No Brasil, embora o estilo ainda enfrente marginalização em certos espaços, segue vivo e relevante, sustentado por uma base sólida e apaixonada de fãs. Fica a expectativa de que iniciativas como essa continuem nas próximas edições do Wacken, ampliando ainda mais o alcance da cena.

Fotos: Jaqueline Andrade Souza (credenciada pelo site Heavy Metal Online)