Encontro histórico do Angra e shows de grandes nomes do heavy metal tradicional marcam segundo dia do Bangers Open Air 2026

No domingo (26), a segunda data do Bangers Open Air 2026 apresentou um lineup mais voltado ao heavy metal tradicional. Entre os principais destaques esteve o show especial do Angra, celebrando os 25 anos do álbum Rebirth com a reunião de músicos ligados à fase do disco — um encontro que não acontecia há anos. Outros nomes de peso como Primal Fear, Smith/Kotzen, Winger e Udo Dirkschneider também reforçaram a pegada mais clássica do dia. Ainda assim, o festival manteve espaço para nomes contemporâneos, como Within Temptation, Crazy Lixx e Ambush.

Abrindo os trabalhos, os paulistanos do Project 46 — já conhecidos do público desde a primeira edição, ainda sob o nome Summer Breeze Brasil — entregaram um show intenso e direto. Com seu metalcore agressivo, o grupo apostou em faixas como “Rédeas”, “Erro +55”, “Foda-se” e “Acorda pra Vida” para mobilizar a plateia. O resultado foi imediato: moshpits, wall of death, crowdsurfing e interação constante, com o vocalista Caio MacBeserra conduzindo a dinâmica com segurança. Uma abertura eficiente, que ajudou a estabelecer a atmosfera do dia.

Do outro lado do Memorial da América Latina, no Palco Sun, os austríacos do Visions of Atlantis exibiam em uma proposta estética e sonora bem distinta. Com temática pirata — tanto no visual quanto nas letras-, a banda apresentou um repertório baseado em praticamente toda discografia lançada até o momento, mostrando uma sonoridade combinando elementos de metal sinfônico com uma abordagem teatral. Mesmo fugindo do padrão mais tradicional do gênero, o público respondeu de forma positiva, acompanhando as interações e entrando na atmosfera do grupo. Destaque para a química em palco entre os vocalistas Clémentine Delauney e Michele Guaitoli, que possuiam grande conexão e sustentaram bem a narrativa performática do show.

Iniciando a sequência mais voltada ao heavy metal tradicional no Palco Hot, o Primal Fear — um dos principais nomes do estilo na Alemanha — apresentou sua nova formação. Entre as novidades, a presença da guitarrista Thalia Bellazecca e a participação de Dirk Schlächter (Gamma Ray) no baixo, substituindo temporariamente Mat Sinner. O setlist trouxe faixas recentes do álbum Domination (2025), como “Destroyer” e “I Am the Primal Fear”, sem abrir mão de clássicos como “King of Madness”, “Chainbreaker” e o hino “Metal Is Forever”.

Apesar da postura headbanger agressiva, o grupo demonstrou carisma e forte conexão com o público. O vocalista Ralf Scheepers interagiu constantemente, agradecendo o apoio dos fãs e reforçando o espírito da comunidade metal. A nova formação mostrou-se entrosada e precisa, e Thalia chamou atenção não apenas pela técnica, mas também pela presença de palco, interagindo com fãs e fotógrafos no pit. Vale lembrar que a banda já havia se apresentado na pré-party do festival, na sexta-feira, e ainda assim reuniu um público significativo sob o calor intenso — um indicativo claro da fidelidade dos fãs ao heavy metal alemão old school.

Ainda na linha do power metal, Roy Khan — ex-vocalista do Kamelot — assumiu o Palco Sun. O músico estreou sua fase solo no Brasil no ano passado, durante a abertura de um show de Edu Falaschi. Porém, para o Bangers, o cantor optou por um repertório inteiramente focado em sua trajetória com a antiga banda. Clássicos como “Soul Society”, “Memento Mori”, “The Haunting (Somewhere in Time)” e “Ghost Opera” dominaram o set. Mesmo sem apresentar material inédito, a recepção foi bastante positiva, impulsionada não apenas pelo fator nostalgia, mas também pela qualidade da banda de apoio — que contou com músicos do Seven Spires e nomes brasileiros como Caio Kehyayan (Firewing) e Charles Soulz (Maestrick).

No Palco Ice, veio uma das apresentações mais aguardadas fora do circuito de headliners: o retorno do Nevermore aos palcos, após a morte do frontman Warrel Dane. O novo vocalista, Berzan Önen, apareceu vestindo uma camisa da seleção brasileira, gesto que rapidamente conquistou parte da plateia. O set, embora curto — com cerca de oito músicas — , trouxe faixas importantes como “Narcosynthesis”, “Enemies of Reality” e “Beyond Within”. Berzan impressionou tanto pela potência vocal quanto pela presença física imponente, enquanto a nova formação demonstrou vigor e coesão. Ainda que seja cedo para comparações diretas com a formação clássica, a resposta do público — que acompanhou atentamente cada música e, posteriormente, também esgotou um side show — indica uma recepção bastante positiva.

Quebrando momentaneamente a sequência de heavy metal tradicional do lineup, os suecos do Amaranthe trouxeram ao Palco Ice uma abordagem mais moderna. Com três vocalistas alternando entre linhas melódicas, agudas e guturais, além de uma estética e temática futurista, o grupo apresentou um espetáculo bem produzido e tecnicamente consistente. No entanto, a resposta do público foi mais contida. Talvez, em um palco secundário, onde o som mais específico poderia dialogar melhor com seu nicho, o impacto tivesse sido maior.

Igualmente, no Palco Sun, o heavy metal foi deixado um pouco de lado e o hard rock ganhou espaço com os suecos do Crazy Lixx. Em ascensão e já conhecidos por passagens recentes pelo Brasil, o grupo demonstrou na prática o motivo do crescente interesse ao seu redor. Faixas como “Hell Raising Women”, “Never Die (Forever Wild)” e “Midnight Rebels” evidenciaram riffs marcantes, bases rítmicas sólidas e refrães de fácil assimilação. A performance energética e acessível, sem cair em estereótipos caricatos, conquistou boa parte do público — especialmente aqueles menos familiarizados com o gênero.

De volta ao Palco Hot, o festival apresentou uma faceta diferente de dois nomes consagrados da guitarra: Adrian Smith (Iron Maiden) e Richie Kotzen (The Winery Dogs, Mr. Big). Com o projeto Smith/Kotzen, os músicos exploraram uma sonoridade além do heavy metal tradicional, incorporando elementos de blues, rock clássico e até passagens de jazz fusion. O repertório, baseado nos dois álbuns lançados até o momento (Smith/Kotzen e Black Light/White Noise), foi executado com extremo cuidado técnico, com destaque para os elaborados diálogos de guitarra.

A banda de apoio também teve papel fundamental na dinâmica do show. Em diversos momentos, a baixista Julia Lage roubou a cena com sua presença de palco carismática e execução precisa, enquanto interagia com o público. Para encerrar, a dupla brindou os fãs com “Wasted Years”, clássico do Iron Maiden, criando um elo direto com suas trajetórias mais conhecidas.

Indo para a reta final do evento, os holandeses do Within Temptation marcaram seu retorno ao festival após dois anos com uma apresentação à altura do status que ocupam no lineup do Palco Ice. A vocalista Sharon den Adel surgiu no palco vestindo um figurino branco com máscara adornada por espinhos, abrindo o show com “We Go to War” e estabelecendo imediatamente o tom teatral da performance. Com uma produção impecável — iluminação precisa, peso sonoro bem equilibrado e execução técnica refinada — , o repertório transitou por sucessos como “Stand My Ground”, “Faster” e “Lost”. No entanto, o grande trunfo foi a inclusão de faixas menos recorrentes, como “The Howling”, “The Heart of Everything” e “Forsaken”, agradando especialmente os fãs mais antigos, já que não eram executadas há anos. O resultado foi um espetáculo completo, capaz de equilibrar apelo popular e profundidade de catálogo.

Na sequência, após dois dias intensos de música pesada, o festival caminhava para seu encerramento com um dos momentos mais aguardados: o retorno do Angra com a formação da era Rebirth. Além disso, a apresentação também marcou a despedida de Fabio Lione e a estreia de Alírio Netto nos vocais.

O show teve início com efeitos pirotécnicos e um vídeo comemorativo celebrando os 35 anos da banda, reunindo imagens marcantes de diferentes fases. Na sequência, Alírio assumiu os vocais em “Nothing to Say” e “Angels Cry”, demonstrando segurança logo de início. Mesmo em meio a um contexto delicado, Fabio Lione compareceu e manteve o profissionalismo e participou de faixas como “Tide of Changes (Parts I e II)”, “Lisbon” e “Vida Seca”. Antes de se despedir, agradeceu ao público pelos anos à frente da banda, em um momento de evidente emoção.

Na parte final desse bloco, Alírio retornou ao palco para interpretar o cover de “Wuthering Heights”, de Kate Bush, além de “Carolina IV”. A impressão inicial é bastante positiva: o vocalista demonstra potência, carisma e versatilidade, além de boa presença de palco e domínio instrumental, o que indica uma adaptação promissora ao grupo.

Após uma breve pausa, subiram ao palco Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli e Aquiles Priester para a execução de Rebirth na íntegra. A performance de faixas como “Nova Era”, “Heroes of Sand”, “Spread Your Fire” e “Acid Rain” impressionou pela precisão e entrosamento, a ponto de não parecer que os músicos estiveram afastados por tanto tempo. Um momento, sem exagero, histórico para o heavy metal nacional.

Após o álbum, houve ainda um bloco especial em homenagem a André Matos, falecido em 2019, com a execução de “Silence and Distance”. Para encerrar, integrantes de diferentes fases do Angra retornaram ao palco para uma performance coletiva de “Carry On”, em um dos momentos mais emocionantes e simbólicos de todo o festival.

O Bangers Open Air 2026 reafirma sua posição como um dos principais eventos dedicados à música pesada na América do Sul. Mais do que uma sequência de shows, o festival se consolida como uma experiência de comunidade — um espaço onde fãs se reúnem para celebrar o gênero em sua forma mais intensa. Em muitos aspectos, é quase um ritual coletivo, difícil de ser replicado por outros eventos do circuito nacional.

Fotos: Anderson Hildebrando (credenciado pelo site Heavy Metal Online)