Certamente, Bane e Stick To Your Guns são duas bandas que “furam a bolha” dentro do próprio cenário hardcore, alcançando públicos além do nicho tradicional do gênero. A primeira carrega uma importância singular na cena: embora vinculada ao movimento straight edge, inovou ao incorporar composições com forte teor político e pessoal, aliadas a uma sonoridade mais melódica e acessível — algo pouco comum no anos 1990, época em que muitos conjuntos priorizavam letras centradas no veganismo e na abstinência de álcool e drogas. Já o Stick To Your Guns ganhou destaque por apostar em uma abordagem mais moderna, mesclando elementos de metalcore e hardcore melódico sem abrir mão da agressividade. Esse equilíbrio garantiu à banda respeito inclusive entre vertentes mais extremas do hardcore, permitindo dividir palco de igual para igual com nomes como Hatebreed, Terror e Comeback Kid.
Ambas as bandas já haviam passado por São Paulo em outras ocasiões, mas, no último sábado (02), o público paulistano presenciou um encontro inédito: as duas referências do hardcore reunidas no mesmo palco pela primeira vez. A escolha do local foi mais do que acertada: o Hangar 110, lendário reduto punk da capital paulista. O evento, organizado pela Solid Music Entertainment, também integrou uma turnê que passou por Florianópolis e Curitiba, seguindo posteriormente para outras capitais da América Latina, como Buenos Aires, Santiago e Lima.
Com a missão de abrir a sessão musical da noite e representar a música pesada da cidade de Goiânia, veio Uttara. Apesar de recente, o grupo reúne nomes já conhecidos da cena local, com passagens por bandas como Never Look Back e Coerência, além de contar com Ikaro Stafford Santana, que anteriormente liderou a banda estadunidense Ankla.
Durante o set, o Uttara apresentou as faixas de seu EP de estreia, “Chapter One: Becoming”, marcado por uma sonoridade que transita pelo hardcore com incursões em elementos de deathcore e death metal. Mesmo soando bem mais pesada que as demais atrações, a resposta do público foi extremamente positiva: a galera agitou na pista, iniciando circle pits e two-steps do início ao fim da apresentação.

Na sequência, diretamente da Califórnia, subiu ao palco o Stick To Your Guns. O set começou com uma sonora de “Take On Me”, clássico do a-ha, criando um contraste quase irônico com o caos que tomaria conta do Hangar 110 instantes depois. Bastaram os primeiros acordes de “Diamond” para que a pista explodisse: stage dives em sequência e moshpits gigantescos transformaram o ambiente em um verdadeiro turbilhão de energia.
O show seguiu com um repertório robusto, reunindo cerca de 15 faixas e diversos hinos da banda, como “What Choice Did You Give Us?”, “Nothing You Can Do to Me” e “Amber”. A conexão com o público foi imediata e intensa, com fãs invadindo o palco para cantar ao lado do vocalista Jesse Barnett. A entrega foi tão visceral que, em meio ao caos característico do hardcore, um fã acabou se machucando e precisou deixar o local de ambulância — um reflexo do nível de intensidade que tomou conta da apresentação.

Ainda assim, para além da execução precisa e da energia quase incontrolável — somadas à tradicional ausência de barreiras entre banda e público — , o grande destaque do show foi a forte mensagem política conduzida por Barnett. Reconhecido como uma das vozes mais engajadas do hardcore contemporâneo, o frontman utilizou diversos momentos da apresentação para se posicionar. Ele elogiou ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destacando inclusive sua aparição com o boné do movimento no clipe de “Spineless”, como forma de dar visibilidade internacional à causa.
Barnett também afirmou que tocar na América Latina era, para ele, algo próximo de “estar na Meca”, reforçando sua identificação com ideais socialistas e seu interesse por pensadores latino-americanos. Em outro momento, direcionou críticas ao governo dos Estados Unidos e à sua postura expansionista, mencionando ações recentes envolvendo países como Venezuela e Irã. Foi, sem dúvida, a demonstração mais clara de que hardcore e posicionamento político forte caminham juntos.

Com a missão de encerrar uma noite histórica para a cena hardcore paulistana, oos integrantes do Bane surgiram no cenário. A abertura veio com “Non-Negotiable”, destaque do álbum “Don’t Wait Up” (2014), que imediatamente colocou a pista em ebulição. Após o primeiro momento de caos, a banda engatou “Can We Start Again?”, um dos maiores hinos do hardcore mundial, cuja crítica às atitudes preconceituosas dentro de uma cena que prega união foi entoada em coro uníssono pelo público.
Depois da catarse coletiva, o grupo manteve o ritmo com um repertório que equilibrou faixas menos óbvias, como “Ante Up”, “Superhero”, “All the Way Through” e “Swan Song”, com momentos emblemáticos como “My Therapy” e “Calling Hours” — esta última frequentemente chamada de “We Are The World do hardcore”, pela quantidade de participações especiais em sua versão original. Durante a execução, a plateia protagonizou um dos momentos mais marcantes da noite, cantando em peso enquanto Zach Jordan assumia boa parte dos vocais, demonstrando grande segurança e apuro melódico. Aaron Bedard, por sua vez, interagiu constantemente com o público, dividindo trechos das letras e mostrando-se mais ativo em relação à apresentação de 2024, sustentando com mais firmeza suas linhas vocais.

Se Barnett conduziu um discurso mais politizado, Aaron apostou em uma abordagem mais humanizada. Entre as músicas, destacou a importância do respeito dentro da cena hardcore, o incentivo a novas bandas e a necessidade de tornar os shows espaços mais seguros e acolhedores para os novos membros e interessados. De forma humorada, também relembrou a conturbada última passagem por São Paulo, marcada por problemas logísticos, como atrasos de voo e a perda de seu passaporte. Para encerrar o set, “Final Backward Glance” trouxe um clima de emoção coletiva, com o público cantando cada verso como uma verdadeira despedida à altura da noite.
Ao final, muitos fãs discutiam qual teria sido o melhor show — com muitos apontando o STYG pela intensidade quase caótica da apresentação. No entanto, a comparação soa reducionista: os dois sets não competiram, mas se complementaram. Enquanto os californianos impressionaram pela energia e engajamento político, o Bane entregou uma performance carregada de emoção e significado, ancorada em canções fundamentais para o hardcore. O resultado foi uma experiência completa e memorável para a cena paulistana.
Fotos: Daniel Agapito (credenciado pelo site “Rato De Show”)













































Setlists
Bane
Non-Negotiable
Can We Start Again
Ante Up
Superhero
All the Way Through
Swan Song
Calling Hours
Some Came Running
My Therapy
Count Me Out
Final Backward Glance
Stick To Your Guns
Diamond
Nobody
Such Pain
What Goes Around
Invisible Rain
What Choice Did You Give Us?
We Still Believe
Severed Forever
Empty Heads
Nothing You Can Do to Me
More Than a Witness
Spineless
Amber
This Is More
Against Them All
