Fotos: Flávio Santiago (On Stage)
O rock japonês vem conquistando cada vez mais espaço no cenário musical internacional, e a América Latina não tem ficado de fora desse movimento. Até poucos anos atrás, bandas do país asiático raramente recebiam atenção da mídia tradicional fora de seu mercado de origem. Quando passavam pelo continente latino-americano, suas apresentações costumavam se limitar a eventos segmentados, especialmente convenções de animê e encontros voltados à cultura pop japonesa.
Nos últimos anos, porém, especialmente após o fim do período da pandemia de Covid-19, gêneros como J-rock, J-pop e Visual Kei passaram a alcançar um público muito mais amplo. Cada vez mais, o fenômeno vem deixando de ser exclusivo aos fãs de animê e da cultura otaku, atraindo também ouvintes interessados simplesmente em descobrir novas sonoridades. Como reflexo desse crescimento, grandes produtoras passaram a investir com mais frequência em turnês de artistas japoneses pela região. Passagens recentes de nomes como One Ok Rock, Hyde e Ado demonstram essa mudança de cenário, já que foram promovidas por empresas que, até então, raramente apostavam em atrações vindas do Japão.
Na última quarta-feira (27), a Powerline — produtora bastante conhecida pelo público underground paulistano por promover shows de hardcore, punk, indie e heavy metal — trouxe a capital paulista uma das bandas japonesas mais populares da atualidade, o Man With A Mission — conjunto conhecido tanto por suas contribuições para trilhas sonoras de animes como Demon Slayer, My Hero Academia e Log Horizon quanto pelo visual marcante, que apresenta todos os integrantes usando máscaras de lobos. O espetáculo aconteceu no tradicional Carioca Club, localizado no bairro de Pinheiros. A pequena turnê também contou com datas no Chile e México.
– Um pouco mais sobre a história do curioso grupo
Formado em 2010, em Tóquio, o Man With A Mission ganhou popularidade ao combinar elementos de rock alternativo, punk, hard rock e música eletrônica. Além do som energético e visual exótico, a banda chama atenção pela curiosa mitologia criada em torno de sua identidade: segundo sua lore oficial, os integrantes seriam “lobos supremos” geneticamente modificados por um cientista chamado Dr. Jimi (Jimi Hendrix), despertados após um longo período de hibernação para levar sua música ao mundo.
Em mais de uma década de carreira, construiu uma carreira sólida que vai muito além do conceito visual. Ao longo dos anos, a banda acumulou sucessos dentro e fora do Japão, impulsionada especialmente por músicas que integraram trilhas sonoras de animes. Com turnês internacionais frequentes e apresentações em grandes festivais, o quinteto consolidou-se como um dos principais representantes da crescente expansão global da música japonesa contemporânea.
– Show e experiência geral
Mesmo ocorrendo em pleno dia útil, o evento contou com um público expressivo. Horas antes da abertura dos portões, uma longa fila já se formava pela Rua Cardeal Arcoverde. Também chamou a atenção a quantidade de cosplayers presentes, muitos deles reproduzindo visuais inspirados em videoclipes do conjunto. Outro aspecto interessante foi a diversidade do público: além dos fãs de cultura otaku, era possível observar fãs vestindo camisetas de grupos de rock, metal, hardcore e punk, evidenciando a capacidade do Man With A Mission de agradar diferentes tribos.
Dentro do clube, para preservar o anonimato dos “lobos”, o público precisou seguir regras rígidas durante a apresentação. Fotografias e filmagens foram proibidas, com avisos exibidos nos telões de LED do Carioca Club. Quem descumprisse as determinações iria ser prontamente advertido pela equipe de segurança e organização. Embora a medida fizesse sentido dentro da proposta artística do grupo, ela acabou dificultando um pouco o trabalho de jornalistas e criadores de conteúdo, impedidos de registrar imagens para redes sociais ou mesmo realizar cobertura em tempo real.
Pontualmente às 20h30, Tokyo Tanaka (vocal), Jean-Ken Johnny (vocal e guitarra), Kamikaze Boy (baixo), DJ Santa Monica (DJ e programações) e Spear Rib (bateria) subiram ao palco ao som de “Man With a Mission”, faixa do Bad Religion presente no álbum Recipe for Hate. Após a introdução, os músicos cumprimentaram brevemente o público e deram início ao show com a energética “Vertigo”, presente no EP XV, um dos lançamentos mais recentes da banda. A partir daí, o repertório mergulhou em uma sequência de sucessos, incluindo “Dark Crow”, “Get Off of My Way” e uma releitura de “Thunderstruck”, clássico do AC/DC que ganhou contornos modernos graças à forte presença de elementos eletrônicos.
O espetáculo seguiu alternando entre singles importantes da discografia, como “REACHING FOR THE SKY”, “database” e “Dead End in Tokyo”, e músicas que se tornaram conhecidas por integrarem trilhas sonoras de animes de sucesso, como “My Hero” e “The Seven Deadly Sins”. Além da competência técnica demonstrada por todos os integrantes, o grande diferencial do Man With A Mission está no carisma. Durante toda a apresentação, os músicos mantiveram uma interação constante com a plateia, alternando discursos em inglês, brincadeiras e até algumas tentativas de comunicação em português.

As coreografias também desempenharam papel importante na experiência do show. Em praticamente todas as músicas havia movimentos previamente ensaiados, prontamente reproduzidos pelo público. Um dos momentos mais marcantes ocorreu durante “FLY AGAIN”, quando Tokyo Tanaka comandou uma verdadeira onda de braços sincronizados, gerando uma cena de beleza ímpar na pista.
A produção também merece destaque. O som permaneceu limpo e equilibrado durante todo o set, enquanto o projeto de iluminação elevou ainda mais o impacto visual da apresentação. Frequentador assíduo do Carioca Club, este repórter que vos escreve pode afirmar que poucas vezes viu a casa receber uma produção luminotécnica tão caprichada e precisa. Vale destacar que o grupo trouxe uma equipe enorme para o espetáculo, com técnicos de monitores e iluminação, roadies, fotógrafos, videomakers e muito mais.
Fugindo da estrutura tradicional de um show de rock, a apresentação ainda contou com um vídeo de humor exibido nos telões, onde os membros da banda foram retratados em um ambiente de trabalho formal em uma mina de extração, um solo conjunto de DJ e bateria e uma versão acústica de “Dive”. A faixa escolhida para o encerramento do set regular foi “Kizuna no Kiseki”, tema de abertura da terceira temporada de Demon Slayer, cantada em coro por praticamente todos os presentes.
Após uma pequena pausa, a banda retornou para o bis e executou “Emotions” e “Raise Your Flag”, levando a energia da casa ao máximo mais uma vez. Ao final da apresentação, os integrantes autorizaram o uso dos celulares, permitindo que os fãs registrassem fotos e vídeos. Em um último gesto de conexão com os seguidores, aproximaram-se da beira do palco para distribuir palhetas, baquetas e setlists.
Em sua primeira passagem por São Paulo, o Man With A Mission entregou exatamente o que seus fãs esperavam: uma apresentação repleta de energia, competência musical e momentos de pura diversão. Mais do que promover seu catálogo de sucessos, a banda mostrou por que se tornou um dos principais nomes do rock japonês contemporâneo, conquistando públicos muito além das fronteiras de seu país de origem. Se a recepção calorosa do Carioca Club servir de indicativo, dificilmente esta será a última visita dos “lobos” ao Brasil.

Setlist
- Vertigo
- Dark Crow
- Get Off of My Way
- Thunderstruck
- REACHING FOR THE SKY
- database
- Dead End in Tokyo
- Seven Deadly Sins
- My Hero
- Dive
- Merry-Go-Round
- Take Me Under
- FLY AGAIN
- Against the Kings and Gods
- Kizuna no Kiseki
Bis:
- Emotions
- Raise your flag
