Com clássicos e novidades, Tygers Of Pan Tang retorna a São Paulo e entrega apresentação animada e competente

Em 2024, durante a segunda edição do Summer Breeze Brasil — atualmente rebatizado como Bangers Open Air — , os headbangers paulistanos tiveram a oportunidade de reencontrar o Tygers Of Pan Tang após oito anos de ausência da banda no país. Embora seja frequentemente lembrado como um dos nomes menos midiáticos da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), o grupo britânico surpreendeu pela capacidade de mobilizar fãs. Durante sua apresentação, uma verdadeira multidão ocupou o Sun Stage, a ponto de dificultar a circulação na passarela que conecta os dois lados do Memorial da América Latina. Nem mesmo o show do Black Stone Cherry, que acontecia simultaneamente no palco principal, foi capaz de diminuir o interesse do público.

Pouco mais de dois anos após a elogiada participação na maior celebração headbanger da América Latina, a banda voltou à capital paulista para uma apresentação em formato mais intimista. Os shows aconteceram nos dias 29 e 30 de maio no La Iglesia, tradicional reduto do rock e do metal localizado no bairro de Pinheiros. Representantes do Heavy Metal Online tiveram a oportunidade de conferir a primeira data.

Histórico

Formado em 1978 na cidade de Whitley Bay, no nordeste da Inglaterra, o Tygers Of Pan Tang foi um dos pioneiros da New Wave of British Heavy Metal, movimento que revitalizou o heavy metal no final da década de 1970 e revelou nomes fundamentais como Iron Maiden, Saxon e Def Leppard. Combinando riffs velozes, melodias marcantes e fortes influências do hard rock, a banda rapidamente conquistou espaço na cena britânica. Seu período mais celebrado ocorreu no início dos anos 1980, com o lançamento de álbuns que se tornaram referências do gênero, como Wild Cat (1980), Spellbound (1981) e Crazy Nights (1981).

Mesmo enfrentando constantes mudanças de formação e períodos de menor visibilidade ao longo das décadas seguintes, o grupo nunca deixou de produzir e excursionar. Sob a liderança do guitarrista e membro fundador Robb Weir, o conjunto segue mantendo viva a essência da NWOBHM.

Experiência geral e shows

Com capacidade para cerca de 200 pessoas, o La Iglesia mostrou-se pequeno para receber o retorno do Tygers Of Pan Tang à capital paulista. Muito antes do início das apresentações, já era possível notar uma grande concentração de fãs no local, evidenciando a expectativa em torno do evento. A procura foi tamanha que não seria exagero afirmar que o show poderia ter acontecido em casas maiores, como o Hangar 110 ou a Burning House, sem dificuldades para atrair público.

A abertura da noite ficou a cargo do Comando Nuclear. Embora não seja um nome amplamente conhecido fora dos círculos mais dedicados ao metal underground, o grupo paulistano acumula mais de duas décadas de trajetória na cena nacional. Durante sua apresentação, a banda apostou em músicas dos álbuns Batalhão Infernal (2006) e Guerreiros da Noite (2011), entregando um repertório calcado no thrash e no speed metal, com riffs velozes, solos elaborados e uma execução bastante consistente. Como presente aos presentes, o grupo ainda apresentou uma composição inédita, que integrará um futuro lançamento de estúdio.

Na sequência, foi a vez de outro nome histórico do metal brasileiro subir ao palco. Formado em 1981, o Azul Limão é considerado um dos pioneiros do heavy metal nacional e preparou um set especial para a ocasião. O quarteto executou na íntegra o clássico Vingança, álbum que completará 40 anos em 2026. Faixas como “Portas da Imaginação”, “Satã Clama Metal” e “Não Vou Mais Falar” foram recebidas com entusiasmo pelo público, que acompanhou cantando junto com total empolgação. Ver uma plateia formada por diferentes gerações reagindo com tamanha paixão a músicas lançadas há quase quatro décadas foi uma bela demonstração de como o heavy metal permanece atemporal.

Após uma breve pausa para a troca de equipamentos — que contou até mesmo com a participação dos integrantes do Tygers Of Pan Tang na organização do palco — chegou o momento mais aguardado da noite. Robb Weir e John Footit (guitarras), Craig Ellis (bateria), Huw Holding (baixo) e Jacopo Meille (vocal) surgiram sob aplausos calorosos e abriram o show com “Euthanasia”, clássico presente em Wild Cat (1980). Desde os primeiros acordes, ficou evidente que a banda continua em plena forma. As guitarras afiadas de Weir e Footit e a voz potente de Meille mostraram que o peso e a energia que marcaram a trajetória do grupo permanecem intactos.

Sem perder tempo, os britânicos emendaram “Gangland”, outro clássico absoluto de sua fase inicial, levando a plateia à euforia. Após conquistar definitivamente o público, Jacopo aproveitou para agradecer a presença dos fãs e introduzir “Keeping Me Alive”, explicando que a música fala sobre o poder transformador da música e sua capacidade de ajudar as pessoas a seguir em frente. A faixa, originalmente lançada em Ambush (2012), trouxe uma sonoridade mais próxima do hard rock melódico e mostrou que a banda não depende apenas de seu passado para manter a atenção dos presentes.

O grupo continuou equilibrando diferentes fases de sua carreira. “Back For Good”, do elogiado Bloodlines (2023), gerou um dos momentos de maior interação da noite graças à marcante linha de baixo que levou o público a acompanhar a música com palmas sincronizadas. Em seguida vieram “Take It”, do clássico Spellbound (1981), e “Electrifyed”, single recente que antecipa o próximo álbum da banda e apresenta uma abordagem mais pesada, marcada por guitarras harmonizadas e uma atmosfera que flerta com o thrash metal.

Em outro momento de descontração, Jacopo revelou que a próxima música havia se tornado a mais popular do grupo nas plataformas digitais. Segundo ele, poderia imaginar, durante sua composição, que aquela canção se transformaria no maior sucesso de um catálogo com mais de quatro décadas de história. A introdução de “Only the Brave” foi recebida com entusiasmo imediato. O motivo é fácil de compreender: trata-se de uma música extremamente acessível, sustentada por um riff contagiante e um refrão convidativo para ser cantado em uníssono.

A partir dali, a banda mergulhou de vez em sua fase clássica. “Slave to Freedom”, “Love Potion №9” — famosa releitura em chave hard rock do sucesso dos The Clovers — e a indispensável “Hellbound” mantiveram a energia do público em alta. Após uma rápida saída do palco, os músicos retornaram para o tradicional bis, encerrando a noite com “Love Don’t Stay” e “Suzie Smiled”. 

É verdade que alguns clássicos ficaram de fora do repertório, algo praticamente inevitável para uma banda com mais de quatro décadas de carreira e uma discografia tão extensa. Da mesma forma, muitos fãs certamente não reclamariam se o show tivesse se estendido por mais alguns minutos. Ainda assim, esses detalhes pouco impactaram a experiência geral. Ao final da apresentação, era possível perceber a satisfação estampada no rosto dos presentes. Entre sucessos consagrados, faixas mais recentes e uma performance carregada de energia, o Tygers Of Pan Tang provou que, apesar de não ter entrado para o “hall da fama” do NWOBHM, é uma banda absurdamente profissional e com uma base de seguidores fieis.