Poucas bandas foram tão importantes para o hardcore brasileiro na década de 2010 quanto a Pense. Durante aquele período, o grupo formado em Belo Horizonte consolidou seu nome como uma das principais referências do gênero no país, lançando três álbuns de estúdio, realizando uma turnê europeia e construindo uma base de fãs fiel. Com apresentações intensas e marcadas pela forte conexão com o público, a banda conquistou espaço em praticamente todos os cantos do Brasil, tornando-se presença constante nos principais eventos do circuito underground.
Apesar do sucesso, a banda enfrentou uma das maiores transformações de sua história quando os músicos Lucas Guerra, Charles Taylo e Cristiano Souza — responsáveis por alguns dos momentos mais marcantes da carreira do quinteto — deixaram a formação para seguir novos caminhos no ano de 2022.
Determinados a seguir em frente, os remanescentes Judá Ramos e Ítalo Nonato recrutaram Daniel Avelar, Raphael Gonçalves e Alexandre Magno. Com essa nova formação, lançaram o álbum “Tudo Que Temos de Lembrar” (2024), trabalho que reafirmou a identidade da banda e garantiu a continuidade de sua relevância dentro da cena hardcore nacional, mantendo uma agenda intensa de apresentações por todo o país.
Para celebrar essa nova fase, os rapazes gravavam na última sexta-feira (5) um novo material audiovisual, intitulado “Talvez Tenhamos Tudo”. Mais do que uma simples comemoração, o evento contou com participações especiais de peso, incluindo Rodrigo Lima, do Dead Fish, Teco Martins, do Rancore, Gabriel Zander, Lê, do Gritando HC, além de Renan Samam, Moa Oliveira e Naia Lima.
Outro fator que tornou a noite especial foi sua realização na Casa Natura Musical, uma das mais prestigiadas casas de espetáculo da capital paulista. Conhecida por receber artistas de MPB, jazz, pop e diferentes vertentes da música alternativa, o espaço jamais havia recebido apresentações de hardcore. Nesse sentido, a escolha do local teve um significado simbólico: demonstrou que o gênero, historicamente associado a ambientes menores e mais underground, também possui força e relevância para ocupar palcos tradicionalmente reservados a outros estilos musicais.
Experiência geral e show
O público do hardcore está acostumado a casas underground que, apesar de abrigarem espetáculos marcantes, às vezes deixam a desejar na infraestrutura. Dessa forma, a experiência na Casa Natura Musical foi marcante: ambientes com decoração sofisticada e espaços claramente pensados para fotos. A limpeza era impecável, e os corredores tinham aroma de produtos de beleza da marca. A iluminação estava precisa, o som agradável e os bares, amplos, evitaram filas longas. Além disso, a equipe da casa, de maneira simpática, abordava a galera que ia chegando aos poucos e entregavam demonstrações de produtos da Natura, criando uma atmosfera convidativa. Certamente, para os frequentadores de shows do segmento, foi uma vivência bem diferente.
Com alguns minutos de atraso, às 21h20, Ítalo Nonato (vocal), Daniel Avelar (guitarra), Judá Ramos (baixo), Raphael Gonçalves (guitarra) e Alexandre Magno (bateria) subiram ao palco ao som de “Samurai” (Djavan). Ao fim da introdução, como de costume em apresentações do grupo, o público agitou o coro presente na intro de “Dia Corrido”, e o início do set veio com “Sala de Controle”, onde Ítalo logo de cara solicitou um moshpit e foi prontamente atendido, com os fãs transformando o espaço em um verdadeiro pandemônio. “O que as palavras dizem”, também presente na tracklist de “Tudo Que Temos de Lembrar”, deu continuidade à festa.

Após apresentar as duas faixas recentes, o grupo seguiu para canções de lançamentos anteriores, abrindo com “O que me cega” e emendando uma sequência do material “Realidade, Vida e Fé” (2018) — “Levanta e Vai” e “Existência”. Neste momento o palco foi invadido por dezenas de seguidores, que se lançavam nos stages dives. A energia foi tão grande que alguém acabou se machucando, e o show precisou ser interrompido por alguns minutos para que a equipe de segurança retirasse o fã ferido.
Então, veio a primeira participação da noite com Elaine “Lê”, do Gritando HC, dividindo os vocais com Ítalo em “Ampliar a Visão”. “Aponte pro Espelho” e “Só Depende de Nós” completaram o bloco, com esta última contando com grande participação do público, que acompanhou a introdução em palmas ritmadas. Em seguida, os rappers Felipe Flip, Moah e Renan Samam subiram ao palco para uma versão de “As Cores São Bem Diferentes”, incluindo na composição original algumas rimas autorais. Ao final do feat, exibiram uma bandeira com a frase “Não desista de você”.

Logo após, a banda mergulhou no repertório do primeiro disco, “Espelho da Alma”, apresentando “Amigos Valem Mais do que Asfalto” e a faixa homônima. “Seguro Demais”, do segundo álbum, trouxe Ítalo nas guitarras — lembrança de quando ele exercia essa função quando Lucas Guerra era frontman. Depois, Teco Martins entrou para acompanhar “De Onde Viemos”, resultando em uma das participações mais interessantes da noite, já que a estrutura da música foi completamente repaginada, ficando mais lenta e com uma sonoridade que parecia mais uma música do Rancore do que propriamente da Pense. Após do momento mais calmo e reflexivo, “Utopia” e “Tudo Que Temos de Lembrar” devolveram a energia hardcore ao set.

Próximo ao encerramento, as participações dominaram o set. Gabriel Zander dividiu os vocais em “Autodefesa”, single lançado recentemente em parceria com a banda e que conta com um videoclipe nas redes sociais. Em “Não Vou Recuar Pra Ninguém”, cuja composição aborda xenofobia e os desafios de recomeçar em outro lugar sendo um imigrante, a escolha de Naia Lima, rapper do Rio Grande do Norte radicada em São Paulo, foi particularmente acertada: ela trouxe autenticidade ao falar sobre uma realidade que viveu. Em seguida a banda tocou a marcante “Eu Não Posso Mais”. Encerrando as participações, Rodrigo Lima se juntou para dividir a voz na energética e acelerada “Gota a Gota”. Para encerrar, o grupo escolheu “Andando Sobre Pedras”, que contou com uma grande invasão de fãs no palco.

Com repertório poderoso, o Pense não apenas celebrou uma nova fase, mas também revisitou sua trajetória — não numa tentativa de reviver o passado, e sim de integrá-lo a uma nova realidade. As participações agregaram camadas interessantes às canções. Já a opção pela Casa Natura Musical, com infraestrutura surpreendente e agradável, foi um presente para os fãs. Resta torcer para que a iniciativa funcione como porta de entrada para o gênero naquele espaço e que a banda siga sólida em sua carreira.
Fotos: Danilo Costa (Credenciado pelo site Musicult, que gentilmente compartilhou seu trabalho com o Heavy Metal Online)

























Setlist
Dia Corrido
Sala de Controle
O Que as Palavras Dizem
O Que Me Cega
Levanta e Vai
Existência
Ampliar a Visão
Aponte pro Espelho
Só Depende de Nós
As Cores São Bem Diferentes
Amigos Valem Mais do que Asfalto
Espelho da Alma
Seguro Demais
De Onde Viemos
Utopia
Tudo Que Temos de Lembrar
Autodefesa
Não Vou Recuar pra Ninguém
Eu Não Posso Mais
Gota a Gota
Andando Sobre Pedras
