shame entrega show explosivo no Cine Joia e fortalece laços com o Brasil

Desde seus primeiros anos de atividade, o shame, uma das principais revelações do pós-punk britânico da década de 2010, desenvolveu uma relação especial com o público brasileiro. Em 2019, pouco após o lançamento de seu álbum de estreia, Songs of Praise, o quinteto realizou uma apresentação memorável no extinto Breve, em São Paulo. O show rapidamente entrou para o imaginário da cena alternativa paulistana graças à intensidade da performance e à presença de palco quase caótica do vocalista Charlie Steen, que transformou a apresentação em uma verdadeira catarse coletiva. Até hoje, a apresentação é tratada como um momento histórico.

Após o período de paralisação causado pela pandemia, a banda retornou ao Brasil em 2022 para uma série de apresentações que passaram por São Paulo e outras cidades, incluindo uma apresentação em um festival em Belém do Pará — uma cidade que geralmente fica de fora de turnês de grupos do circuito independente.

Essa proximidade ficou ainda mais evidente em 2025, com o lançamento de Cutthroat, quarto álbum de estúdio da banda. Entre as faixas do disco está “Lampião”, uma homenagem ao icônico líder do cangaço brasileiro. A canção incorpora trechos em português de “Acorda Maria Bonita”, composição de Antônio dos Santos, o Volta Seca. O gesto foi recebido com entusiasmo pelos fãs nacionais e demonstrou, mais uma vez, o interesse genuíno do grupo pela cultura brasileira.

Quase um ano após o lançamento do disco, os fãs paulistanos finalmente tiveram a oportunidade de conferir ao vivo as novas composições e matar a saudade de outros clássicos da carreira da banda. No último sábado (20), o shame subiu ao palco do Cine Joia para mais uma apresentação explosiva na capital paulista. O evento foi promovido pela Balaclava Records, produtora que também foi responsável pelas turnês anteriores do grupo no Brasil.

A abertura da noite ficou por conta da Catïça, diretamente de Londrina. Embora a sonoridade do grupo não fosse diretamente na linha da atração principal, a banda conseguiu conquistar rapidamente a atenção do público presente. Após subir ao palco com quase uma hora de atraso em relação ao horário inicialmente divulgado, o quarteto apresentou um repertório difícil de rotular, transitando entre rock, punk, hardcore, nu metal e até elementos eletrônicos. As letras, marcadas por forte teor crítico e bem-humorado, abordam temas ligados à realidade brasileira contemporânea. Um dos destaques foi uma música que satiriza os proprietários de carros da Porsche, fazendo referência aos diversos casos de imprudência envolvendo veículos da marca que ganharam repercussão na mídia nos últimos anos.

A performance foi energética do início ao fim. Os integrantes percorreram o palco constantemente, interagindo com a plateia e incentivando a participação do público. A resposta veio na mesma intensidade: rodas se formaram na pista e os primeiros mosh pits da noite surgiram ainda durante o set da banda. O grupo também aproveitou a ocasião para apresentar músicas inéditas que deverão integrar seu próximo álbum, possivelmente lançado pela Balaclava Records, ampliando a diversidade artística do catálogo da gravadora.

Já com o Cine Joia bastante cheio, embora sem atingir lotação máxima, os alto-falantes começaram a reproduzir “País Tropical”, de Jorge Ben Jor, sinalizando que o momento mais aguardado da noite estava prestes a começar. Pouco depois, os integrantes do shame surgiram no palco sob os aplausos do público. Vestindo uma camisa da Seleção Brasileira, Charlie Steen arrancou risadas ao gritar “Gol!” antes mesmo de a banda tocar a primeira nota.

A abertura veio com “Axis of Evil”, faixa de encerramento de Cutthroat. Seu ritmo acelerado e carregado de elementos eletrônicos foi suficiente para colocar a pista em movimento. Logo em seguida, Charlie se dirigiu ao público em um português surpreendentemente compreensível, afirmando que havia passado por Peru, Argentina e Chile durante a turnê, mas que tinha certeza de que aquela seria a melhor noite da turnê. A declaração serviu de introdução para “Concrete”, um dos grandes clássicos de Songs of Praise, que imediatamente desencadeou mosh pits, stage dives e uma reação ensurdecedora da plateia.

Na sequência, “Tasteless”, do mesmo material, manteve a energia elevada. Durante a música, Charlie se aproximou da grade e entregou o pedestal do microfone para que os fãs cantassem parte dos versos. O retorno ao repertório de Cutthroat aconteceu com “Cowards Around” e “Nothing Better”, duas das faixas mais caóticas do álbum. Em meio ao caos sonoro, o vocalista pediu a formação de um circle pit e foi prontamente atendido pelos presentes.

Após a sequência mais intensa, “Fingers of Steel”, de Food for Worms, trouxe um momento mais dançante, sustentado por uma bateria pulsante e riffs contagiantes. Ainda do mesmo álbum, “Six-Pack” rendeu uma das interações mais divertidas da noite. Antes da música, Charlie lançou sua camisa da Seleção para a plateia e pediu que todos se sentassem no chão para depois se levantarem ao seu comando, transformando a pista em uma grande brincadeira coletiva. Em seguida, “Alphabet” foi cantada em coro por praticamente todo o Cine Joia, enquanto “Quiet Life” reafirmou a força do material mais recente da banda.

Antes de tocar “Lampião”, Charlie decidiu compartilhar a história por trás da composição. Ele mencionou, durante uma visita anterior ao Brasil, saiu para comer acarajé com a namorada e familiares dela. Na ocasião, seu sogro lhe contou a história de Lampião, personagem central do cangaço nordestino. Fascinado pelo relato, o músico decidiu pesquisar mais sobre o tema e acabou transformando a descoberta em música. Quando a faixa começou, o público respondeu imediatamente, acompanhando em uníssono os trechos cantados em português.

A reta final do show foi uma verdadeira celebração da trajetória da banda. Músicas como “Born in Luton”, “Water in the Well” e “Snow Day” mantiveram a intensidade no máximo, enquanto Charlie alternava entre danças desengonçadas, brincadeiras com a plateia e aparições envolto em uma bandeira do Brasil, usada como um vestido improvisado. O encerramento veio com “Cutthroat. Durante a execução, o vocalista se lançou em um stage dive, encerrando a apresentação de forma apoteótica e levando o entusiasmo do público ao máximo.

Ao longo dos anos, o shame expandiu sua identidade musical, incorporando novas influências, refinando sua composição e desenvolvendo uma abordagem mais versátil e bem-humorada. Entretanto, quando o assunto é performance ao vivo, pouco mudou desde os primeiros dias da banda. O quinteto continua entregando apresentações explosivas, sustentadas pela competência técnica de todos os integrantes e, principalmente, pelo carisma avassalador de Charlie Steen. Intenso, imprevisível e extremamente comunicativo, o vocalista permanece como o grande centro das atenções. Com mais uma passagem memorável pelo país e a apresentação de Cutthroat para os fãs brasileiros, o grupo reforçou uma conexão que parece ficar mais forte a cada visita ao Brasil.

Setlist

Axis of Evil

Concrete

Tasteless

Cowards Around

Nothing Better

Fingers of Steel

Six Pack

Alphabet

Quiet Life

Lampião

Born in Luton

Adderall

Water in the Well

Spartak

Snow Day

One Rizla

Angie

Cutthroat