Violeta de Outono e Edgard Scandurra celebram a psicodelia brasileira na Casa Natura

Quando se fala sobre o rock brasileiro da década de 1980, é comum que venham à mente nomes ligados ao pop rock, new wave e punk, como Legião Urbana, RPM, Paralamas do Sucesso, Inocentes e Nenhum de Nós. Entretanto, paralelamente ao sucesso desses grupos, uma cena underground igualmente rica se desenvolvia no país, explorando sonoridades mais atmosféricas e experimentais. Influenciada pelo rock psicodélico, pelo pós-punk, pelo rock progressivo e pelas paisagens sonoras que mais tarde ajudariam a definir o estilo conhecido como “shoegaze”, essa vertente produziu algumas das obras mais interessantes e inovadoras da música brasileira.

Entre os principais representantes desse movimento está o Violeta de Outono. Formado em São Paulo, em 1984, por Fábio Golfetti (guitarra e vocal), Cláudio Souza (baixo) e Angelo Pastorello (bateria), o trio surgiu em meio à efervescência do rock nacional, mas escolheu trilhar um caminho próprio, distante das tendências comerciais da época. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, a banda construiu uma discografia respeitada tanto no Brasil quanto no exterior, com trabalhos como “Violeta de Outono” (1987), “Em Toda Parte” e “Espectro”. Sua combinação de psicodelia, progressivo e experimentação sonora influenciou gerações de músicos e consolidou o grupo como uma das formações mais importantes da música alternativa brasileira. Mesmo sem alcançar grande projeção comercial, o Violeta de Outono conquistou um público fiel e permanece como uma referência incontornável quando o assunto é rock psicodélico nacional.

No último domingo (21), o trio teve a oportunidade de levar sua música a um palco pouco habitual para bandas desse universo. Conhecido por suas frequentes apresentações em teatros, centros culturais e espaços tradicionais do circuito alternativo paulistano, o grupo protagonizou um belo espetáculo na Casa Natura Musical, uma das casas de shows mais prestigiadas da capital paulista. A apresentação integrou o projeto “Frequências, iniciativa que busca promover encontros entre artistas de diferentes estilos e gerações, ampliando o diálogo entre diversas vertentes da música brasileira.

Para tornar a noite ainda mais especial, o evento contou com a participação de Edgard Scandurra. Conhecido principalmente por seu trabalho à frente do Ira!, o guitarrista apresentou um show inédito ao lado da banda Ema Stoned, explorando uma faceta mais instrumental, psicodélica e experimental de sua carreira.

Apesar do frio que tomou conta da capital paulista na data, o evento reuniu um bom público, ainda que não tenha atingido lotação máxima. Chamava atenção o contraste geracional presente na plateia: de um lado, fãs que provavelmente acompanham o Violeta de Outono desde seus primeiros anos de atividade; do outro, admiradores jovens, que provavelmente conheceram o conjunto impulsionados pelo ressurgimento do interesse pelo shoegaze, pela psicodelia e pelo rock alternativo nas redes sociais nos últimos anos.

Com alguns minutos de atraso em relação ao horário previsto, Fábio Golfetti, Angelo Pastorello e Cláudio Souza surgiram no cenário. A partir dali, o trio conduziu o público por uma verdadeira viagem sonora ao executar quase integralmente o clássico álbum Violeta de Outono (1987). Das nove músicas presentes no repertório, apenas “Sombras Flutuantes” e “Júpiter” não pertenciam ao disco de estreia. O espetáculo foi marcado por longas passagens instrumentais, que evidenciaram a habilidade técnica dos músicos. Fábio impressionou com seus timbres etéreos e solos precisos, enquanto o baixo de Cláudio assumiu papel de destaque em diversos momentos, conduzindo as canções com linhas marcantes que frequentemente se sobressaíam aos demais instrumentos. Mais de quatro décadas após sua formação, a banda demonstrou estar tão afiada quanto em seus anos iniciais.

A iluminação também mereceu destaque. Extremamente bem planejada, ajudou a criar uma atmosfera hipnótica que dialogava perfeitamente com a proposta psicodélica das composições. Tons suaves, jogos de luz e projeções discretas transformaram o palco em uma extensão natural da experiência sonora. Embora a interação entre os músicos e o público tenha sido mínima, isso não se mostrou como um problema. Ver o trio executando faixas de um dos álbuns mais importantes do rock independente brasileiro em uma casa com excelente acústica, estrutura profissional e cenário cuidadosamente elaborado foi um verdadeiro presente para os fãs presentes.

Após uma breve pausa para a troca de equipamentos, chegou a vez de Edgard Scandurra, lendário guitarrista nacional e amplamente reconhecido por sua trajetória à frente do Ira!, seguir com a gig. O músico veio acompanhado por Ale Duarte (guitarra), Elke Lamers (baixo) e Theo Charbel (bateria), apresentando um espetáculo que transitou entre psicodelia, rock instrumental e experimentação sonora. O repertório incluiu releituras de canções como “¿Por Qué Te Vas?” (José Luis Perales), além de músicas da carreira da Ema Stoned e trabalhos do próprio Scandurra.

O ponto alto da apresentação, porém, ficou por conta das composições inéditas surgidas da parceria entre os músicos. Entre elas, destacou-se o single “Cinzas das Horas”, que chamou atenção pela combinação de elementos psicodélicos com influências ibéricas, especialmente pelo uso marcante do violão espanhol. Durante todo o show, Edgard demonstrou a técnica refinada que o transformou em uma das figuras mais respeitadas da guitarra nacional, alternando riffs elaborados, passagens melódicas e solos executados com naturalidade. Ao mesmo tempo, as meninas da Ema Stoned enriqueceram as músicas com camadas atmosféricas e psicodélicas que deram identidade própria ao projeto.

O resultado foi um encontro surpreendentemente harmonioso entre diferentes gerações e trajetórias musicais. A fusão entre a experiência de Scandurra e a abordagem contemporânea da Ema Stoned mostrou-se natural e inspirada, rendendo alguns dos momentos mais interessantes da noite. Para completar, o guitarrista revelou que a parceria terá continuidade, com novos lançamentos em breve.

Ao final, o projeto Frequências entregou exatamente o que prometia: uma celebração da diversidade e da riqueza do rock psicodélico brasileiro. Com reverência aos clássicos do Violeta de Outono e a experimentação contemporânea de Edgard Scandurra e Ema Stoned, a Casa Natura Musical entregou uma verdadeira festa para os admiradores do estilo.

Setlists

Violeta de Outono

  • Noturno Deserto
  • Outono
  • Declínio de Maio
  • Luz
  • Sombras Flutuantes
  • Júpiter
  • Reflexos da Noite
  • Dia Eterno
  • Tomorrow Never Knows

Edgard Scandurra e Ema Stoned

Imagino

Tubarão

Porque Te Vas

UTI

Cinzas das Horas

Tapetão

Yo La Tengo

Muito Além

Chefão

Valsa para Derribá