Viper apresenta repertório especial em comemoração ao Dia Mundial do Rock

Julho é um mês especial para os fãs de música em São Paulo. Tradicionalmente, na semana que antecede e sucede o dia 13, diversos pontos na cidade promovem eventos em homenagem ao chamado “Dia Mundial do Rock”, data que surgiu após o histórico festival beneficente Live Aid, realizado em 1985, que reuniu artistas como U2, Led Zeppelin, The Who, Black Sabbath e Queen em uma maratona de apresentações simultâneas para arrecadar fundos destinados ao combate à fome na Etiópia. Desde então, passou a ser celebrada em países como o Brasil, tornando-se um marco para a cena roqueira nacional.

Ao longo das últimas décadas, o Sesc (Serviço Social do Comércio) consolidou-se como um dos principais incentivadores da música brasileira em suas mais diversas vertentes, incluindo o rock e o heavy metal. A instituição foi palco de apresentações históricas, desde festivais emblemáticos como o Começo do Fim do Mundo, realizado em 1982, até shows de bandas que se tornariam referências do rock nacional, como Titãs, Barão Vermelho e Kid Abelha, além de abrir espaço para inúmeros artistas da cena independente. Em 2026, a rede manteve a tradição ao promover o projeto Rua do Rock, reunindo, ao longo de diferentes datas, no palco da unidade “24 de Maio”, nomes importantes de vertentes do punk rock, metal e hard rock do cenário paulistano, entre eles: Inocentes, Punho de Mahin, Malvada e Viper.

Na última sexta-feira (10), a equipe do Heavy Metal Online acompanhou a apresentação do Viper. Considerada uma das bandas pioneiras do heavy metal brasileiro, o grupo ganhou projeção mundial no fim da década de 1980 com os clássicos Soldiers of Sunrise (1987) e Theatre of Fate (1989), trabalhos que revelaram ao mundo o talento do saudoso vocalista André Matos. Celebrando 40 anos de carreira, a banda apresentou um repertório especial e subiu ao palco com uma formação diferente da habitual: Val Santos assumiu as guitarras durante a ausência de Kiko Shred, que está em turnê com o músico Fabio Lione.

Antes mesmo de o Viper subir ao palco, a expectativa já era perceptível. Os bares nos arredores do local estavam repletos de fãs com camisetas pretas, coletes jeans e rodas de conversa entre fãs que aguardavam ansiosamente pelo início da apresentação. O resultado não poderia ser diferente: ingressos esgotados. A primeira surpresa, no entanto, veio ao entrar na sala de espetáculos. Diferentemente do que se costuma esperar de um show de heavy metal, o público acompanharia a apresentação sentado — uma proposta inusitada que, apesar da estranheza inicial, não diminuiu em nada a energia da noite.

Pontualmente no horário marcado, Leandro Caçoilo (vocais), Felipe Machado (guitarra e membro fundador), Val Santos (guitarra), Daniel Matos (baixo) e Guilherme Martin (bateria) tomaram seus lugares no palco para abrir a noite com a poderosa “Under the Sun”, do álbum Timeless (2023). A escolha da faixa serviu como prova de que o Viper ainda consegue entregar canções marcantes após anos de atividade na cena metal. Em seguida, a banda conduziu o público por uma verdadeira viagem à fase clássica do heavy metal brasileiro, revisitando seus três primeiros discos — Soldiers of Sunrise (1987), Theatre of Fate (1989) e Evolution (1992). Clássicos como “To Live Again”, “Knights of Destruction”, “Dead Light” e “Coming from the Inside” transformaram a plateia em um grande coro. Mesmo acomodados em seus assentos, os fãs acompanharam cada verso com entusiasmo.

Leandro Caçoilo demonstrou por que é considerado um frontman ideal para o conjunto. Sua interpretação preserva elementos característicos da técnica vocal do saudoso André Matos, mas sem soar como mera imitação, já que acrescenta forte personalidade às canções. Nas guitarras, Felipe Machado e Val Santos formaram uma dupla bastante entrosada. Embora participe como convidado, Val possui uma longa história ao lado do Viper desde os anos 1980 e desempenhou seu papel com naturalidade, sustentando bases sólidas enquanto Felipe desfilava solos caprichados. Daniel Matos, além da competência técnica no baixo, conquistou o público com seu carisma e pela importante contribuição nos backing vocals. Já Guilherme Martin elevou o peso das músicas com uma performance intensa e vigorosa, imprimindo uma força ainda maior às composições originalmente gravadas no fim da década de 1980.

O repertório ainda reservou algumas surpresas. Uma delas foi “Coma Rage”, faixa do álbum homônimo lançado em 1995, período em que o grupo incorporou influências mais próximas do thrash metal. A execução contou com a participação especial do guitarrista Nando Machado. Outro momento marcante veio com “The Spreading Soul”, acompanhada por uma emocionante projeção em homenagem a André Matos e Pit Passarell nos telões do palco. Porém, músicas dos álbuns Tem pra Todo Mundo (1996) e All My Life (2007) não surgiram no set.

Na reta final, qualquer formalidade imposta pelos assentos ficou para trás. Ao som de “Living for the Night” e “Rebel Maniac”, praticamente toda a plateia se levantou para cantar junto com a banda. Alguns fãs chegaram até a subir no palco para dividir os microfones com Leandro Caçoilo e Felipe Machado. Contagiados pela receptividade, os integrantes decidiram estender a apresentação com um cover de “We Will Rock You”, do Queen, além de“H.R.”, faixa do primeiro álbum da carreira.

Ao longo de aproximadamente 90 minutos, o Viper entregou um espetáculo que equilibrou nostalgia e renovação. O repertório contemplou os grandes clássicos responsáveis por consolidar o grupo como um dos pioneiros do heavy metal brasileiro, sem deixar de valorizar sua produção mais recente. A banda mostrou que não vive apenas da própria história: continua criativa, tecnicamente afiada e plenamente capaz de conquistar novas gerações de fãs. Mesmo com o inevitável clima de euforia nos momentos finais, o público demonstrou respeito e harmonia durante toda a apresentação. Que iniciativas como o projeto “Rua do Rock” continuem encontrando espaço na programação do Sesc 24 de Maio e contribuindo para fortalecer uma cena que segue mais viva do que nunca.

Setlist

Under the Sun

To Live Again

A Cry from the Edge

Knights of Destruction

Evolution

Dead Light

Timeless

Coma Rage

Coming From the Inside

Soldiers of Sunrise

The Spreading Soul

Prelude to Oblivion

Living for the Night

Rebel Maniac

We Will Rock You

H.R.