João Gordo: muito além do punk — artista multifacetado leva sua inquietação para a música, comunicação e ação social

Crédito da foto: Marcos Hermes

Por mais de quatro décadas, o nome João Gordo esteve diretamente ligado ao peso, à atitude e à irreverência do Ratos de Porão, uma das bandas mais importantes da história do punk e do crossover mundial. Mas reduzir sua trajetória apenas à figura do vocalista explosivo dos palcos é ignorar uma carreira marcada pela experimentação, criatividade e constante reinvenção.

 

Aos 62 anos, João Gordo segue provando que continua sendo um dos artistas mais inquietos da música brasileira. Entre shows, gravações, programas de entrevista, podcasts e iniciativas sociais, ele transita por universos completamente diferentes sem perder sua identidade.

 

Um dos exemplos mais curiosos dessa versatilidade é o Brutal Brega, projeto que conquistou público justamente por transformar clássicos da música popular brasileira em versões pesadas, irreverentes e surpreendentemente fiéis ao espírito original. O repertório dos álbuns passeia por nomes como Reginaldo Rossi, Odair José, Waldick Soriano, Sidney Magal, Reginaldo Rossi, Ângelo Máximo, Jane e Herondy, e muitos outros, mostrando que, para João Gordo, boa música nunca teve preconceitos – um novo álbum está sendo produzido, com sambas clássicos.

 

A vontade de explorar novos caminhos também aparece em projetos como João Gordo & Asteroides Trio, grupo que mergulha no universo do psychobilly, misturando rockabilly, punk e horror com a energia característica do vocalista. A banda vive um momento especial, depois do lançamento do segundo álbum da parceria, “Hallucinogenum Infernala”,  e integra a programação do Rock in Rio deste ano, levando ao festival um lado pouco conhecido do artista.

 

Outro capítulo dessa inquietação musical é Babylons P. e João Gordo, projeto que rompe qualquer expectativa ao unir o peso do doom metal com elementos de dubstep e música eletrônica, criando uma experiência sonora intensa e experimental que reforça a disposição do cantor em desafiar rótulos.

 

Seu mais novo projeto é o João Gordo e Poplars, voltado para o gênero da ska music.

Fora da música, João Gordo também consolidou seu espaço como comunicador. Seu estilo direto, bem-humorado e sem filtros transformou seus programas e podcasts em referências para quem acompanha cultura, comportamento e música pesada. Conversando com artistas de diferentes gerações e estilos, ele demonstra a mesma autenticidade que o tornou um dos personagens mais respeitados do rock brasileiro.

 

Mas talvez sua faceta menos conhecida seja justamente a mais importante.

 

Há anos (ao lado de sua esposa Viviana Torrico), João dedica parte significativa de sua rotina ao trabalho voluntário na Solidariedade Vegan, projeto social responsável pela produção e distribuição de refeições para pessoas em situação de vulnerabilidade. Muito longe dos holofotes, participa ativamente das ações solidárias, reforçando que o espírito contestador do punk também pode se traduzir em empatia, acolhimento e compromisso social.

 

Essa combinação de músico, apresentador, produtor, ativista e artista experimental faz de João Gordo um personagem único na cultura brasileira. Enquanto muitos artistas permanecem presos ao sucesso que os consagrou, ele segue expandindo horizontes, colaborando com diferentes cenas e mostrando que a criatividade não conhece limites.

 

Mais de 40 anos depois de iniciar sua trajetória com o Ratos de Porão, João Gordo continua fazendo exatamente aquilo que sempre o definiu: surpreender. Seja diante de plateias ao redor do mundo, reinterpretando clássicos da música popular, comandando entrevistas, explorando novas sonoridades ou servindo refeições para quem mais precisa, ele prova que sua maior marca nunca foi apenas o punk — foi a capacidade de permanecer relevante, inquieto e absolutamente autêntico.

 

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Fonte: LP Metal Press