Manter uma banda de hardcore punk ativa no circuito independente nunca foi uma tarefa simples, especialmente em países em desenvolvimento, onde dificuldades econômicas, escassez de políticas públicas voltadas à cultura e a falta de incentivo da iniciativa privada tornam a sobrevivência artística ainda mais desafiadora. Encontrar espaços para se apresentar, arcar com os custos de equipamentos e turnês, lidar com cachês modestos e conciliar a música com outras atividades profissionais fazem parte da rotina da maioria dos músicos do gênero. Ainda assim, algumas bandas conseguiram superar essas barreiras e construir carreiras sólidas, tornando-se verdadeiras referências.
Entre esses nomes que merecem destaque está Boom Boom Kid. Fundado por Carlos “Nekro” Rodríguez após o fim do Fun People, o grupo iniciou suas atividades em 2001, justamente quando a Argentina atravessava uma de suas maiores crises econômicas e sociais, marcada pelo episódio conhecido como Corralito. Nesse contexto turbulento, o conjunto entregou ao mundo o incrível Okey Dokey, álbum considerado um dos grandes clássicos do hardcore punk latino-americano. Nos anos seguintes, vieram outros trabalhos igualmente importantes, como Smiles from Chappa Noland (2004), Wassabi (2007) e Frisbee (2009), consolidando uma identidade musical única.
Pouco mais de um ano após sua última passagem pelo Brasil, o Boom Boom Kid retornou a São Paulo na última quinta-feira (23) para um show na Burning House. Mesmo em uma noite fria e em pleno dia útil, o público compareceu em bom número, praticamente lotando a pequena casa de espetáculos localizada na Barra Funda. A excursão também incluiu apresentações em Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis.
A abertura ficou por conta do veterano The Biggs, trio de Sorocaba convidado pessoalmente por Nekro após uma conversa pelo Instagram, de acordo com a vocalista Flávia. Apesar de parecer desconhecida por parte do público, a banda acumula cerca de três décadas de trajetória no underground paulista. Com uma sonoridade baseada no rock alternativo, marcada por guitarras fortes e melodias diretas, o grupo apresentou músicas dos discos Wishful Thinking (2001) e The Roll Call (2007), mas não apresentou nenhuma canção inédita. O destaque ficou para o clima descontraído da apresentação. Flávia, Mayra e Brown Biggs mostraram grande entrosamento e interagiram constantemente com a galera próxima ao palco e acostumada com as composições. Em um dos momentos mais divertidos do show, Flávia resumiu bem o espírito da cena independente ao brincar: “Rock independente não dá futuro, mas dá presente e passado pra caralho.”

Com a casa aquecida, chegou a vez da principal atração da noite. Antes mesmo da primeira música, Nekro já chamava atenção pelo figurino extravagante, composto por roupas coloridas que simulavam respingos de tinta e um inusitado chapéu de pirata. Bastaram os primeiros acordes para transformar a Burning House em uma grande festa. Logo na abertura, o vocalista lançou serpentinas sobre a plateia e, dali em diante, praticamente não parou um segundo sequer. Dançou, pulou, rolou pelo chão, dividiu o microfone com os fãs e transformou o palco em uma extensão da pista. Enquanto isso, a banda na “cozinha” transitava naturalmente entre hardcore, punk rock, grindcore, surf music e até baladas latinas, mostrando a identidade única do quarteto.

Além da música, Nekro aproveitou diversos momentos para conversar com o público. Em seus discursos, destacou a importância de preservar o respeito dentro da cena underground, criticou o clima de intolerância dos tempos atuais neste “mundo de merda” e defendeu a música como ferramenta de união, amizade e construção de comunidade. O repertório percorreu praticamente toda a carreira do Boom Boom Kid, mas também abriu espaço para clássicos do Fun People, como “Vientos”, “F.M.I.”, “F.M.S.”, “Question”, “A Mi Manera” e “Si Pudiera”. Curiosamente, o trabalho Okey Dokey recebeu atenção especial, com a execução de “Júlio”, “Pei Pa Koa”, “Brick By Brick” — onde Nekro literalmente “surfou” sobre o público utilizando uma prancha — e “Feliz”, encerrada com uma invasão espontânea de fãs ao palco para cantar junto com a banda. De fato, uma celebração marcada pela ausência de barreiras entre público e artistas e com o espiríto de alegra e diversão dominando o espaço.

Mais uma vez, o Boom Boom Kid mostrou por que permanece como um dos nomes mais queridos do punk rock latino-americano. Sem recorrer a grandes produções ou efeitos especiais, o grupo entregou exatamente aquilo que seus fãs esperam: autenticidade, proximidade com o público e uma celebração coletiva baseada em música, amizade e diversão.
Fotos: Flávio Santiago (credenciado pelo site ONSTAGE)








