Com canções inéditas e clássicos, Plastique Noir apresenta renovação e maturidade no palco do Sesc Belenzinho

Foto: GiuAZ

Ao longo das últimas décadas, a internet abriu espaço para que estilos que provavelmente jamais encontrariam grande repercussão na mídia tradicional conquistassem público e popularidade. Entre esses segmentos de menor apelo comercial, o post-punk certamente foi um dos que mais se beneficiaram dessa transformação. 

Embora a sonoridade esteja presente no underground desde o final dos anos 1970, nos últimos anos o gênero ganhou uma nova dimensão graças à repercussão de bandas contemporâneas como Molchat Doma (Bielorrússia), Ploho (Rússia) e She Past Away (Turquia), já que canções desses grupos passaram a servir de trilha sonora para vídeos em redes sociais como TikTok e Instagram, fazendo com que essa vertente da música obscura deixasse os círculos mais restritos do underground e se transformasse em um verdadeiro fenômeno.

Com a popularização do gênero nas plataformas digitais, alguns grupos nacionais também foram beneficiados de maneira significativa. Entre os nomes de destaque da cena independente brasileira, um dos principais exemplos é o Plastique Noir. Formado em 2005, em Fortaleza (CE), o trio vem explorando há duas décadas as atmosferas sombrias do post-punk e do darkwave, construindo uma discografia consistente com trabalhos como Dead Pop (2008), 24 Hours Awake (2015) e Iskuros (2021). A trajetória rendeu ao grupo reconhecimento tanto no cenário brasileiro quanto no exterior. Porém, é possível notar que o interesse do público em relação a obra do grupo vem crescendo de maneira expressiva nos últimos tempos. A frequência de apresentações e o tamanho das plateias são sinais claros dessa expansão. 

Alguns meses depois de dividir o palco da Burning House com o Unto Others, um dos nomes de destaque da atual cena sombria norte-americana, a banda retornou à capital paulista no sábado (1º), desta vez para se apresentar no Sesc Belenzinho, em um show praticamente esgotado.

Com um repertório especial e inédito, Airton S. (vocais), Danyel Fernandes (guitarra e teclado) e Deivyson Teixeira (baixo) aproveitaram a ocasião para apresentar algumas das músicas que estarão no próximo álbum do grupo, Orla Brutal, previsto para ser lançado ainda neste semestre. “Vertigem” e “Maré Vermelha” foram recebidas com entusiasmo pelo público, que também demonstrou grande receptividade à mudança gradual do inglês para o português nas composições. Essa transição, vale lembrar, já havia começado de maneira mais discreta em Iskuros, com “Catedrais em Chamas” e a bem-humorada “Kafé”, ambas também presentes no repertório da noite.

O setlist, entretanto, foi muito além das novidades. A banda revisitou diferentes momentos de sua trajetória com faixas que ajudaram a colocar o Plastique Noir no mapa do underground, como “Imaginary Walls”, “24 Hours Awake”, “All Cats Shall Celebrate Tonight” e “Vésper”. As músicas foram acompanhadas com entusiasmo pelos fãs mais dedicados, muitos deles caracterizados com roupas predominantemente pretas, maquiagens marcantes e uma estética que dialogava perfeitamente com o universo sombrio apresentado pelo trio.

Outro ponto de destaque foi a iluminação. Precisa e cuidadosamente sincronizada com o repertório, ela ajudou a criar atmosferas distintas para cada faixa e ampliou o impacto visual da apresentação. O resultado foi um espetáculo que não se apoiou apenas na força das músicas, mas também na construção de uma identidade estética coerente com a proposta da banda.

No final, o set do trio reforçou a impressão positiva deste momento promissor de sua trajetória. Sem dúvida, o Plastique Noir merece o reconhecimento que vem conquistando nos últimos anos. Se Orla Brutal conseguir traduzir em estúdio a força demonstrada ao vivo, o novo trabalho poderá representar mais um passo importante na consolidação da banda e na conquista de novos espaços, beneficiando-se ainda mais da visibilidade que o post-punk e a cultura darkwave vem recebendo dentro da contracultura. 

Setlist

  • Aklonomy Domine
  • Fugitive Dawn
  • Vertigem
  • Maré Vermelha
  • Mara Hope
  • Imaginary Walls
  • Manifesto
  • 24 Hours Awake
  • Kafé
  • All Cats Shall Celebrate Tonight
  • Rose of Flesh and Blood
  • Catedrais Em Chamas
  • Vésper