O Projeto Frequências, iniciativa idealizada pela Casa Natura Musical, aposta em shows duplos ou múltiplos que reúnem, em uma mesma noite, artistas de diferentes cenas musicais, mas que compartilham alguma sintonia estética ou proposta sonora. Desde seu surgimento, a celebração tem proporcionado ao público a oportunidade de conferir apresentações de representantes de diferentes vertentes em um único evento, promovendo uma interessante experiência de intercâmbio musical.
No último domingo (9), porém, o projeto foi além de simplesmente colocar diferentes segmentos lado a lado. A noite proporcionou aos fãs de dois importantes nomes do rock independente brasileiro a oportunidade de acompanhar momentos distintos de suas trajetórias. De um lado, a banda carioca de hardcore melódico Zander apresentou um set especial em comemoração aos dez anos de Flamboyant, considerado um dos trabalhos mais importantes de sua carreira. Do outro, o grupo potiguar de rock alternativo Far From Alaska levou ao palco seu mais recente álbum, 3, lançado em 2025, mas que ainda não havia sido apresentado ao vivo em razão de um breve hiato nas atividades da banda. O resultado foi uma combinação curiosa entre nostalgia e novidade.
Apesar de um lineup de peso, o evento contou com um público modesto, que ocupou aproximadamente um terço da pista da casa. A procura abaixo do esperado, contudo, foi compreensível diante das circunstâncias: o show estava acontecendo em plena celebração do Dia dos Pais, enquanto a capital paulista enfrentava uma noite fria e marcada por uma forte garoa.
Com alguns minutos de atraso em relação ao horário previsto, Gabriel “Bil” Zander (vocal e guitarra), Carlos “Fermentão” (bateria), Fox Amato (guitarra) e Fausto Oi (baixo) subiram ao palco. Sem grandes surpresas e seguindo a ordem original de Flamboyant, o quarteto executou o álbum praticamente na íntegra, começando por “Bandida e Malvista”, passando por “Avesso” e levando os fãs ao êxtase coletivo com “Bastian Contra o Nada” — um dos maiores sucessos não apenas do disco, mas de toda a carreira da banda, e que nunca deixou de figurar nos repertórios do grupo desde seu lançamento.

A partir daí, o show se transformou em um verdadeiro presente para os admiradores mais fiéis. O quarteto resgatou algumas faixas extremamente raras, como “Diversidade” e “Tem Que”, ambas executadas ao vivo pela última vez em 2017 — sendo que, na segunda, o baixista Fausto Oi assumia algumas partes dos vocais. O grupo também apresentou “Tá Esquisito”, “Controle de Frequência” e “Afinal”, músicas que jamais haviam sido apresentadas ao vivo.

O set teve um significado especial até mesmo para os integrantes. Fausto e Fox entraram para a formação apenas em 2022 e sempre manifestaram o desejo de tocar algumas dessas canções nos shows, enquanto Gabriel Zander admitiu que sequer se lembrava de determinadas faixas do material. Ainda assim, o quarteto executou tudo com segurança e profissionalismo, deixando evidente o cuidadoso trabalho de preparação realizado para aquela apresentação. O público, por sua vez, também fez sua parte: cantou praticamente todas as músicas com entusiasmo, comprovando que Flamboyant permaneceu vivo na memória dos fãs todo esse tempo e que sua execução integral era um evento aguardado com grande expectativa.
Na reta final, Gabriel fez um breve discurso antes de apresentar sua faixa favorita do álbum, “Pra Onde Eu For”, que também não aparecia nos repertórios da banda desde 2016. O músico explicou que a composição aborda sua mudança do Rio de Janeiro para São Paulo e refletiu sobre os desafios envolvidos em grandes transformações.
Para encerrar a apresentação em grande estilo, o grupo resgatou “Caos Efeito”, do projeto Tropical Melancolia, realizado em parceria com o Menores Atos em 2020. A execução da faixa veio acompanhada de outra surpresa: os integrantes anunciaram que as duas bandas voltarão a se reunir em breve para uma apresentação especial em São Paulo dedicada ao material. Sem dúvida, o repertório como um presente ímpar aos fãs.
Após uma pausa para mudanças nos equipamentos e no cenário, Emmily Barreto (vocais), Rafael Brasil (guitarra) e Cris Botarelli (sintetizadores e vocais) surgiram no palco para representar o Far From Alaska. Se o Zander mostrou uma apresentação mais melódica e emotiva, o trio potiguar adotou uma abordagem muito mais explosiva, com bateria pesada, guitarras marcantes e vocais agudos.

No início do set, o grupo revisitou brevemente algumas antigas. Depois, a banda mergulhou de vez no material de 3. Com faixas “Cuz You”, “Olha”, “Future”, “Secret”, “Meltdown” e outras, o trio mostrou certas mudanças em sua sonoridade, com maior presença de elementos eletrônicos, batidas pop dançantes e até determinadas influências da música reggae.
Emmily e Cris demonstraram excelente entrosamento na divisão dos vocais. Além da qualidade técnica, as duas se destacaram pelo carisma e pela forte comunicação com o público. Entre uma música e outra, agradeceram o apoio recebido pelos fãs durante o período de hiato e reforçaram a intenção de retomar definitivamente as atividades e os shows ao vivo. De fato, ficou a impressão de que o Far From Alaska retorna disposto a recuperar o espaço conquistado ao longo de sua trajetória — e, mais do que isso, com material suficiente para alcançar novos públicos e explorar novos patamares dentro do rock nacional.

Assim, o Projeto Frequências cumpriu sua proposta com eficiência. Desta vez, a iniciativa apresentou uma combinação particularmente interessante: de um lado, a possibilidade de revisitar um trabalho marcante do passado por meio de um repertório raro e cuidadosamente preparado; de outro, a oportunidade de conhecer ao vivo um material que impactar o cenário em um futuro breve.
Fotos: Daniel Agapito



































































