Fotos: Paula Cavalcante – @eyeofodin.photo
O disco The Queen Is Dead, terceiro trabalho completo de estúdio do The Smiths, lançado em 1986, tornou-se uma referência dentro do rock alternativo por representar o auge criativo da banda e reunir de maneira singular as guitarras sofisticadas e melódicas de Johnny Marr às letras melancólicas, irônicas e provocativas de Morrissey. Ao longo de suas faixas, o álbum aborda temas como solidão, inadequação, relacionamentos, morte e crítica social, ao mesmo tempo em que constrói um retrato bastante particular da cultura britânica. Quatro décadas depois, sua relevância permanece intacta, mantendo o trabalho entre os grandes clássicos da cultura pop.
Para a tristeza dos fãs, entretanto, uma reunião do The Smiths original para celebrar o material ao vivo parece uma possibilidade cada vez mais distante — para não dizer completamente impossível. O relacionamento conturbado entre Morrissey e Johnny Marr, vocalista e guitarrista da formação original, respectivamente, tornou praticamente inviável uma nova apresentação conjunta, especialmente diante das declarações de ambos de que não pretendem voltar a dividir um palco.
Ainda assim, no último sábado (8), os fãs paulistanos do lendário quarteto britânico tiveram a oportunidade de experimentar ao vivo a atmosfera de The Queen Is Dead. A responsável pela missão foi a Experience The Smyths, banda formada em Londres em 2003 e reconhecida como um dos principais tributos ao The Smiths. Ao longo de sua trajetória, o grupo acumulou centenas de apresentações pelo mundo e passou por festivais como Glastonbury, ampliando seu alcance para além do circuito tradicional de bandas cover/tributos e conquistando também o público geral.
Embora o evento não tenha chegado ao sold out, a casa recebeu um bom público, que ocupou boa parte da pista. Entre os presentes, era possível encontrar fãs de diferentes gerações, com destaque para uma presença expressiva de adolescentes e jovens adultos. A diversidade etária ajudava a demonstrar como o legado do The Smiths permanece atual e como a obra do quarteto de Manchester continua capaz de dialogar com diferentes gerações.
Com alguns minutos de atraso em relação ao horário oficial, a Experience The Smyths subiu ao palco pouco depois das 22h. Graham Sampson, nos vocais; Andy Munro, na guitarra; Simon Smith, no baixo; e Tom Harris, na bateria, deram início à apresentação justamente com a faixa-título, “The Queen Is Dead”, seguida por “Frankly, Mr. Shankly”. Curiosamente, o repertório não reproduziu a ordem original do álbum, permitindo ao grupo distribuir suas principais canções ao longo do espetáculo. “There Is a Light That Never Goes Out” apareceu logo no início, seguida por “Never Had No One Ever”, “The Boy with the Thorn in His Side”, “Cemetry Gates” e “Some Girls Are Bigger Than Others”. O bloco dedicado ao aniversário do clássico ainda passou pela melancólica “I Know It’s Over” e terminou em clima mais animado com “Bigmouth Strikes Again”.

Depois de revisitar o álbum, a banda ampliou o repertório para outros hits da carreira do The Smiths, incluindo “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me”, “Ask”, “Panic”, “What Difference Does It Make?”, “This Charming Man” e “How Soon Is Now?”. A carreira solo de Morrissey também ganhou espaço, com “Suedehead” e “The Last of the Famous International Playboys”. A resposta do público foi bastante positiva: ao longo do set, muitos abandonaram o protocolo de permanecer nas mesas e se dirigiram à pista para cantar e dançar ao som dos clássicos.

De fato, a Experience The Smyths consegue proporcionar uma experiência bastante próxima daquela que se imagina ao assistir ao The Smiths original. O vocalista Graham Sampson possui uma voz impressionantemente semelhante à de Morrissey e se entrega completamente à performance, reproduzindo não apenas a maneira de cantar, mas também os trejeitos e movimentos característicos do vocalista. Há ainda uma preocupação em apresentar diferentes gestos e coreografias ao longo das músicas, evitando que a performance se torne estática. Na parte instrumental, Andy Munro, Simon Smith e Tom Harris também entregam uma reprodução competente e fiel da sonoridade do quarteto de Manchester, sustentando com precisão os arranjos que tornaram as composições tão reconhecíveis.
Se houve um ponto que poderia ter sido melhor explorado, foi justamente a ambientação visual. O palco apresentou uma estrutura relativamente simples, sem grandes elementos cenográficos, telões, bandeiras ou recursos de iluminação capazes de ampliar a experiência. Em uma apresentação concebida para celebrar os 40 anos de The Queen Is Dead, teria sido interessante explorar mais esse aspecto, incorporando imagens, referências visuais e outros elementos relacionados à estética do álbum e à trajetória do The Smiths.
Em um mundo no qual as possibilidades de assistir novamente ao The Smiths original ao vivo são praticamente nulas, a Experience The Smyths oferece aos fãs uma alternativa bastante convincente. Mais do que simplesmente reproduzir as músicas, o grupo procura recriar a atmosfera e a identidade performática que marcaram o quarteto britânico.


















