Crédito das fotos: Jaqueline Souza – @jackie.souza.flashs
Formada na Finlândia no início dos anos 2000, Swallow The Sun consolidou-se como um dos nomes mais importantes do doom metal europeu. Nos primeiros anos de carreira, especialmente em trabalhos como The Morning Never Came (2003), Ghosts of Loss (2005), Hope (2007) e New Moon (2009), a banda apresentava uma sonoridade pesada, sombria e agressiva, com fortes influências de death metal. As guitarras ocupavam posição de destaque, os vocais guturais predominavam e as composições exploravam longos trechos lentos e densos.
Ao longo dos últimos anos, entretanto, o quinteto passou a investir em uma abordagem mais atmosférica e acessível, marcada pela presença crescente de vocais melódicos e por instrumentais mais melódicos, sofisticados e emotivos. Os álbuns When a Shadow Is Forced into the Light (2019) e o excelente Moonflowers (2021) consolidaram essa transformação, fazendo com que os tradicionais riffs densos e pesados deixassem de ocupar o primeiro plano. Em seu lugar, ganharam espaço os vocais limpos, teclados, arranjos de cordas, guitarras atmosféricas e estruturas que dialogam com o gothic rock e o post-metal.
Já em 2024, o grupo aprofundou ainda mais essa direção com Shining. O trabalho preserva a melancolia característica da banda, mas incorpora de maneira mais evidente elementos do gótico, rock alternativo e darkwave, além de melodias mais acessíveis e uma produção moderna e refinada.
Na última terça-feira (11), o público paulistano teve a oportunidade de conferir ao vivo essa nova fase durante a passagem da turnê Shining Over Latin America, realizada no palco do Hangar 110, tradicional reduto do punk rock na capital paulista, mas que, nos últimos anos, também vem abrindo espaço para diferentes vertentes da música independente. O show também marcou ainda o retorno do conjunto a São Paulo após três anos, sendo que a última passagem pela cidade havia acontecido em pleno feriado de Carnaval, quando as ruas da metrópole estavam tomadas por blocos e foliões, criando um contraste curioso com a atmosfera sombria e introspectiva característica da banda. Certamente, um evento memorável entre os headbangers paulistanos.
Mesmo com o frio, céu nublado e garoa, um público significativo compareceu para prestigiar o espetáculo sombrio. Embora o evento não tenha alcançado o sold out, a casa recebeu um bom número de espectadores para um show realizado no início da semana e sob condições climáticas pouco favoráveis. No fim das contas, todo esse cenário melancólico acabou combinando perfeitamente com a proposta sonora dos finlandeses.
Com uma pontualidade impressionante, às 21h, a introdução de piano de “Velvet Chains” começou a ecoar pelos alto-falantes da casa. Ao término da sonora, os músicos surgiram no palco e deram início ao set com “Innocence Was Long Forgotten”, faixa de Shining, que se destaca pelo andamento melódico e pelas caprichadas passagens de guitarra. Na sequência, “Descending Winters”, presente em Ghosts of Loss, segundo álbum da carreira, levou o público a entoar um animado coro de “hey, hey”, impulsionado pelos riffs mais densos e pelos vocais predominantemente guturais. Em seguida, “New Moon”, clássico do disco homônimo, apresentou uma combinação precisa entre peso e melodia, além de um elaborado solo de guitarra de Juho Räihä.
Após essa sequência composta por canções mais pesadas, o quinteto diminuiu a intensidade e trouxe a atmosfera melódica de “Under the Moon & Sun”, também presente no novo disco, marcada pelos vocais limpos e pelas bases de piano pré-gravadas. Durante a execução, a guitarra de Juha Raivio apresentou um problema técnico, obrigando o músico a deixar o palco por alguns instantes. Felizmente, a situação foi rapidamente contornada e, com o equipamento novamente funcionando, o show prosseguiu com “Don’t Fall Asleep (Horror, Pt. 2)”, momento em que Mikko Kotamäki impressionou pela facilidade com que transitou entre os vocais limpos e os guturais.

“Out of This Gloomy Light”, do álbum de estreia The Morning Never Came (2003), surgiu então como um verdadeiro presente para os fãs mais antigos. A faixa, caracterizada pelo peso, pela presença marcante de berros guturais, pelos solos e pela bateria vigorosa, resgatou a atmosfera da fase mais extrema da banda. Curiosamente, apesar da agressividade da composição, não houve formação de mosh pit. A plateia adotou uma postura mais contemplativa, limitando-se, em grande parte, a acompanhar a música balançando a cabeça.
Entre os integrantes, também chamava atenção a maneira distinta como cada um se relacionava com o público. Ao longo do set, o baixista Matti Honkonen e o guitarrista Juha Raivio eram os mais ativos na interação com a pista, enquanto Mikko Kotamäki mantinha uma postura praticamente imóvel, apoiado no pedestal do microfone e com pouca comunicação com a plateia. Juho Räihä e Juuso Raatikainen, por sua vez, demonstravam uma postura mais técnica e concentrada, mantendo o foco em seus respectivos instrumentos.

Entrando na reta final do repertório principal, o grupo promoveu uma interessante combinação entre diferentes momentos de sua trajetória. As melódicas “November Dust” e “MelancHoly”, do último trabalho completo, foram intercaladas com a pesada “Hope”, faixa-título do disco de 2007. Para encerrar o set regular, veio uma dobradinha de New Moon: “Falling World” e “These Woods Breathe Evil”, duas composições marcadas por uma abordagem mais pesada e que foram amplamente acompanhadas pelos fãs presentes.
Após uma breve pausa, o quinteto retornou ao palco para o bis. Sem muita cerimônia, a banda emendou as pesadíssimas “Deadly Nightshade” e “Swallow (Horror, Part 1)”, ambas do álbum de estreia, encerrando a noite com uma dose generosa de agressividade e resgatando a faceta mais extrema de sua sonoridade.
Assim, em seu retorno à cidade de São Paulo, o Swallow The Sun entregou um espetáculo profissional, sustentado por uma execução precisa e por um repertório capaz de percorrer diferentes fases de sua carreira. Embora algumas faixas do elogiado Moonflowers tenham ficado de fora, o setlist conseguiu equilibrar novidades e clássicos, contemplando tanto os fãs mais recentes quanto aqueles que acompanham a banda desde seus primeiros trabalhos. Ao transitar naturalmente entre o peso e a melodia, o grupo mostrou que sua evolução sonora não significou o abandono de suas raízes, mas, sobretudo, uma ampliação de seu escopo criativo.

















Setlist
Innocence Was Long Forgotten
Descending Winters
New Moon
Under the Moon & Sun
Don’t Fall Asleep (Horror, Part 2)
Out of This Gloomy Light
November Dust
Hope
MelancHoly
Falling World
These Woods Breathe Evil
Deadly Nightshade
Swallow (Horror, Part 1)
