Pentagram transforma despedida em celebração de seu legado no palco da Fabrique

Crédito das fotos: Dani Moreira – @danimoreirajrphotography

O destino e a sorte nem sempre foram generosos com Pentagram, uma das bandas mais importantes e, ao mesmo tempo, injustamente pouco reconhecidas da história do heavy metal.

Formada em 1971, na cidade de Alexandria, Virgínia, a banda surgiu praticamente no mesmo período que o Black Sabbath e tornou-se uma das pioneiras da vertente que posteriormente seria conhecida como doom metal. Liderado pelo vocalista Bobby Liebling, o grupo desenvolveu uma sonoridade marcada por riffs lentos, pesados e sombrios, incorporando elementos de blues, hard rock e psicodelia. Apesar de sua importância histórica, a trajetória do quarteto foi marcada por dificuldades, constantes mudanças de formação, problemas com gravadoras e longos períodos de inatividade. Entre as décadas de 1970 e 1990, o conjunto acumulou demos e lançou trabalhos como Day of Reckoning (1987), Be Forewarned (1994) e Review Your Choices (1999), registros que se tornaram referências dentro da música pesada e ajudaram a consolidar o status cult da banda, mas que jamais proporcionaram a fama junto ao grande público.

No entanto, a sorte do grupo começou a mudar mais de cinco décadas após sua formação, graças às redes sociais. Em fevereiro de 2025, um vídeo de Bobby Liebling durante uma apresentação em San Diego, na Califórnia, viralizou em plataformas como TikTok e Instagram. Nas imagens, o vocalista aparece encarando a plateia com uma expressão intensa, cabelos desgrenhados e uma postura que rapidamente chamou a atenção de usuários que, em muitos casos, sequer tinham familiaridade com o rock ou o metal. O registro acumulou milhões de visualizações e transformou-se em uma espécie de fenômeno da cultura pop contemporânea. Naturalmente, a curiosidade em torno do personagem também despertou o interesse pela banda por trás daquele momento, colocando a Pentagram diante de uma exposição que dificilmente teria imaginado conquistar após mais de 50 anos de carreira.

Com a repercussão inesperada e o aumento do interesse do público, a banda passou a encontrar novas oportunidades para excursionar. No ano passado, o grupo esteve em São Paulo e em outras importantes cidades da América do Sul. Já na última quinta-feira (11), o quarteto retornou à capital paulista, desta vez para sua turnê de despedida dos palcos, intitulada Farewell Tour: Last Latin American Run 2026. A apresentação aconteceu na Fabrique, mesmo espaço que recebeu a Pentagram durante sua passagem anterior pela cidade.

Os fãs compareceram em peso, transformando a noite em uma das apresentações mais lotadas da casa em um dia de semana nos últimos tempos. Dezenas de fãs circularam pelas imediações da Rua Barra Funda vestindo camisetas pretas e ocupando os bares da região, criando um clima de empolgação que fazia parecer que o dia seguinte não seria de trabalho. Reunidos para prestar uma última homenagem aos pioneiros do doom metal, os seguidores demonstravam entusiasmo e gratidão por testemunhar um capítulo final de uma trajetória tão importante para a música pesada. Um detalhe que chamou atenção foi a presença expressiva de jovens adultos e até adolescentes, que provavelmente sequer os pais eram nascidos quando a banda lançou seu primeiro disco. Certamente, um exemplo vívido de como as plataformas digitais são capazes de ditar tendências culturais em nossa sociedade contemporânea.

Para a abertura da noite, foi escalada a Fuzzly, diretamente de Cuiabá, capital do Mato Grosso. Embora desconhecida por parte do público, a banda possui uma trajetória considerável na cena nacional de stoner e doom, estando em atividade desde 2001. Durante o set, Dark Jordão (guitarra e voz), Rafael Arruda (bateria) e Hugo Falcão (baixo) percorreram diferentes momentos de sua discografia, apresentando uma sonoridade pesada, construída sobre riffs arrastados, linhas de baixo encorpadas, além de bateria extremamente agressiva. Longas passagens instrumentais e influências de música psicodélica também contribuíram para a atmosfera hipnótica da apresentação. Foi, sem dúvida, uma escolha certeira para iniciar a noite, especialmente por dialogar diretamente com o público interessado no lado mais atmosférico e contemplativo do metal, sem abrir mão do peso característico do gênero.

Então, com a casa completamente lotada — a ponto de o sistema de ar-condicionado se tornar praticamente irrelevante diante do calor no ambiente — , Bobby Liebling (voz), Tony Reed (guitarra), Scooter Haslip (baixo) e Henry Vasquez (bateria) surgiram no palco, imediatamente recebidos por gritos e aplausos. De maneira simpática, o frontman perguntou como os fãs estavam e, logo em seguida, o quarteto deu início ao repertório com “Live Again”, faixa de Lightning in a Bottle (2025). A composição apresenta uma abordagem mais próxima do hard rock, com destaque para um elaborado solo de Tony Reed. Depois da novidade, a banda mergulhou nos clássicos, começando por “Starlady” e seguindo com “The Ghoul” (faixa que viralizou nas redes) e sua atmosfera sinistra, digna de uma trilha sonora de filme de terror, que acabou sendo dedicada pelo vocalista às “pessoas que habitam a noite”.

Pouco depois, o grupo precisou interromper momentaneamente a apresentação para solucionar alguns problemas técnicos que vinham ocorrendo desde o início do set. O contratempo, entretanto, acabou transformando-se em um momento de descontração. Bobby e os demais integrantes aproveitaram a pausa para brincar com o público, enquanto o vocalista arrancou risadas e gritos ao beber Jägermeister diretamente da garrafa. Resolvida a questão, a banda retomou o repertório e passou a revisitar diversos clássicos de sua fase mais pesada. “Sinister”, “When the Screams Come” e “Sign of the Wolf (Pentagram)” foram executadas com bateria vigorosa e riffs densos, recebendo ampla participação dos fãs, que cantaram junto durante boa parte das músicas.

Porém, boa parte do bloco ficou por conta das músicas mais recentes de Lightning in a Bottle, como “I Spoke to Death”, “Dull Pain” e “Thundercrest”, transitando por elementos de hard rock e rock psicodélico sem abandonar completamente o peso que caracteriza a banda. Para complementar essa atmosfera, neste momento, imagens com vibe alucinatórias foram projetadas no painel de LED da casa, criando um espetáculo audiovisual à parte.

Quando se fala em Pentagram ao vivo, é inevitável que a figura de Bobby Liebling acabe sendo o holofote. O vocalista possui uma presença absolutamente singular, e suas expressões faciais, gestos e carisma transformam o set em uma experiência particular. Embora tenha permanecido relativamente contido em termos de movimentação pelo palco, ele demonstrou um vigor físico superior ao apresentado durante a passagem da banda pela cidade no ano anterior. Ainda assim, seria injusto concentrar toda a atenção apenas no frontman. A chamada “cozinha” do Pentagram também funcionou muito bem: Tony Reed mostrou ser um guitarrista extremamente virtuoso, Scooter Haslip manteve forte interação com a plateia e ajudou a manter a energia do espetáculo em alta, enquanto Henry Vasquez acrescentou uma dose considerável de peso e precisão à bateria.

Na reta final, Bobby fez questão de elogiar a energia dos paulistanos, afirmando que São Paulo possui os fãs mais animados do mundo. Para encerrar o repertório regular, veio “Walk the Sociopath”, antes de o quarteto deixar o palco por alguns instantes. Após uma breve pausa, os músicos retornaram para o bis e se despediram definitivamente do público paulistano com dois clássicos incontestáveis: “Forever My Queen” e “20 Buck Spin”.

Felizmente, após mais de cinco décadas de atividade, o Pentagram finalmente conquistou uma visibilidade muito mais próxima daquela que seu legado sempre mereceu. O inesperado fenômeno proporcionado pelas redes sociais abriu portas para que uma nova geração descobrisse a banda. Em São Paulo, o grupo encerrou sua passagem pela cidade de maneira profissional, energética e, sobretudo, digna da importância que construiu ao longo de mais de 50 anos de história no rock.

Setlist

Live Again
Starlady
The Ghoul
I Spoke to Death
Sinister
When the Screams Come
Sign of the Wolf (Pentagram)
Dull Pain
Review Your Choices
Thundercrest
Walk the Sociopath
Forever My Queen
20 Buck Spin