Rhegia prova o valor do Metal brasileiro com “The Mirror of Light”; confira resenha

Há muito tempo o Heavy Metal deixou de ser um gênero restrito às fronteiras europeias ou norte-americanas, mas ainda é necessário discutir a importância de as bandas brasileiras olharem para o próprio quintal. O Brasil possui uma das culturas mais ricas do mundo, e explorar nossas raízes, mitologias e a força dos povos originários também é uma forma de identidade e resistência. Temos um vasto repertório de histórias que vai muito além dos temas europeus tantas vezes explorados pelo gênero. O Rhegia, diretamente do Pará, entende isso como poucos e demonstra a força dessa proposta em “The Mirror of Light”.

Desde o ano passado tenho feito diversas resenhas aqui para o Heavy Metal Online, e o nível das bandas tem atingido padrões elevados, seja de produção, apelo temático, visual ou sonoro. Interessante citar justamente a questão lírica, já que bandas como Miasthenia, Hall of Gods e Pagan Throne trazem, cada um à sua maneira, um pouco da cultura brasileira aos holofotes do Heavy Metal.

“The Mirror of Light” é o segundo álbum da carreira do grupo e capítulo final de uma trilogia – iniciada no EP “Shadow Warrior” (2019) – inspirada na cultura, na mitologia e na ancestralidade dos povos originários da Amazônia. O trabalho leva o conceito construído nos trabalhos anteriores para um cenário futurista e distópico. Se antes a banda mergulhava no passado e nas lendas da floresta, agora a história projeta esse universo para um futuro marcado pelo conflito entre o avanço opressor da inteligência artificial e a força orgânica, pulsante e persistente da natureza.

A identidade visual do lançamento traduz essa colisão de maneira belíssima. A capa, criada por Rômulo Dias, ilustra o conceito do álbum ao apresentar um rosto indígena místico, marcado por pinturas e olhos iluminados, emergindo das águas. Sobre a cabeça, uma gigantesca metrópole cibernética substitui o tradicional cocar de penas, com arranha-céus que se fundem a uma estética futurista e sombria, dominada pelas máquinas. Que ideia fantástica! A imagem funciona como representação do confronto entre a expansão urbana e tecnológica e a ancestralidade amazônica, mas também sugere que o espírito originário permanece presente, sustentando essa realidade.

Em termos sonoros, o disco reproduz esse conflito por meio de contrastes. Os vocais limpos de Bianca Palheta e os guturais de Amanda Alencar estabelecem uma oposição que dialoga diretamente com o conceito central do álbum. Amanda também acrescenta o violoencelo à sonoridade da banda, enquanto as guitarras de Saulo Caraveo despejam riffs pesados e precisos, sustentados pelo baixo de Naoto Shibata e pela bateria de Michel Machado.

O resultado é um trabalho mais maduro e agressivo, mas que preserva os elementos que ajudaram a construir a identidade do Rhegia. A influência amazônica está incorporada à própria concepção do álbum e serve como ponto de partida para discutir uma questão cada vez mais presente no mundo contemporâneo — até onde o avanço tecnológico pode avançar sem romper definitivamente com aquilo que nos conecta à natureza e à nossa própria origem?

O disco abre com a intro “Voice of Time”, que soa basicamente como se fosse uma abertura de um filme, com Amanda criando lindíssimas linhas de violoencelo em meio a pianos e uma pegada mais moderna, além de uma introdução de Bianca ao conceito do disco, em meio a sons da natureza. “The Mirror of Light” vem na sequência, pesada e com riffs cortantes, trazendo a alternância dos vocais limpos e guturais. As guitarras também transbordam melodia, com ótimos solos, enquanto a cozinha traz trechos mais quebrados com outros mais velozes, tudo bem construído e servindo como um perfeito cartão de visitas. E o disco está apenas começando…

A bem bolada “Amazon’ias”, cujo título não poderia ser mais atual, une a Amazônia com inteligência artificial, focando na velocidade e alternando entre trechos cadenciados, belas guitarras, bumbos duplos, refrão grudento e vocais variados. É a típica música que empolga ao vivo, sobretudo pelas guitarras inspiradas de Saulo e os vocais de Bianca e Amanda. Muito bom! Na sequência, “Artificial Lights” tem uma pegada mais calma, com muita melodia e passagens marcantes. “Black Earth” emerge como um Power Metal de respeito, onde o baixo de Naoto Shibata brilha logo de início. Dentre outros destaques há a excelente “Two Sides of a Life”, faixa acústica que transborda sentimento. A longa “Songs of Glory” encerra o álbum de forma épica: dedilhados, vocais limpos e melódicos (que voz tem a Bianca!), e as demais características que fazem de “The Mirror of Light” um dos fortes candidatos a melhor álbum de 2026.

E o encerramento da trilogia chega acompanhado de um momento importante na trajetória do grupo: a participação no Rock in Rio. O Rhegia sobe ao Palco Global Village no dia 5 de setembro, levando a identidade do Metal produzido no Norte do Brasil para um dos maiores eventos de música do mundo.

“The Mirror of Light” é instigante, pesado e ambicioso. Mais do que olhar para o passado, o Rhegia utiliza a ancestralidade amazônica para imaginar o futuro — e, nesse processo, mostra que o Heavy Metal brasileiro possui histórias, símbolos e sonoridades próprias capazes de dialogar com o mundo sem abrir mão de sua identidade. Perfeito! E que o público do Rock in Rio os receba de braços abertos.