Madball prova em São Paulo que segue mais furioso do que nunca

No próximo domingo, dia 15, a cena hardcore de São Paulo recebe a segunda edição do NDP Fest. O evento celebra os dois anos da produtora de shows underground idealizada por Bruno Genaro e promete reunir nomes novos e veteranos do hardcore mundial. O lineup conta com bandas de diferentes países, como Speed (Austrália), Clique e Path of Resistance (Estados Unidos) e Distante (Argentina), além de representantes de peso da cena nacional, como Bayside Kings, Eskrota e Last Warning.

Para aquecer o público antes da grande celebração, a marca promoveu na última sexta-feira (06) uma pré-festa de respeito na Fabrique Club. A atração principal foi nada menos que Madball, um dos nomes mais influentes da história do hardcore mundial.

Curiosamente, o show marcou o retorno do grupo a São Paulo em tempo recorde. A banda havia se apresentado na cidade em dezembro de 2024, mas a forte conexão com o público paulistano parece sempre justificar novas visitas. O vocalista Freddy Madball já declarou em diversas ocasiões sua admiração pela cidade. Assim, o retorno da banda apenas reforça o laço histórico entre o grupo nova-iorquino e a maior metrópole brasileira.

Para a abertura da noite, foram escaladas três bandas — duas nacionais e uma atração internacional. A festa começou com o Fatal Blow, grupo de Balneário Camboriú que ganhou destaque na cena hardcore durante os anos 2000 graças ao seu som pesado e às participações como banda de abertura para nomes como Hatebreed e No Turning Back. Com o público ainda chegando à casa, o conjunto apresentou um repertório que mesclou músicas antigas e composições mais recentes, sinalizando também uma promessa de maior atividade na cena após um período relativamente discreto.

Na sequência, subiu ao palco um dos principais nomes da cena hardcore paulistana atual: o Escombro. Já com a casa mais cheia, o quarteto rapidamente colocou o público em movimento, com a roda se formando ao som de faixas como “Amém”, “Vida Vazia”, “Libertar” e “Sofrer”. Em “Cicatrizes”, o vocalista Bayside Kings, Milton Aguiar, fez uma participação especial nos vocais, simbolizando a união entre a vertente straight edge e bandas com sonoridade mais voltada ao beatdown hardcore.

Encerrando o bloco de abertura, subiu ao palco o Vacunt, diretamente da Áustria. O grupo está realizando uma mini-turnê pelo Brasil, passando por diversas cidades do país. A sonoridade da banda contrastava bastante com a das demais atrações da noite, trazendo uma pegada mais voltada ao skatepunk e ao hardcore melódico, marcada por riffs rápidos, batidas skank punk frenéticas e linhas de baixo precisas e cativantes.

O vocalista Zal foi um destaque à parte. Comunicando-se em um excelente português, ele correu pelo palco, pulou, interagiu com o público e simulava movimentos de boxe durante a apresentação, mantendo a energia do set em alta. Já próximo do encerramento, a banda surpreendeu ao tocar um cover de “Periferia”, clássico do Ratos de Porão. Zal comentou que é fã do grupo desde a adolescência e que era uma honra tocar justamente na cidade natal da lendária banda paulista. Apesar da diferença estética em relação às demais atrações da noite, o show encaixou-se perfeitamente no evento, mostrando o espírito de diversidade que historicamente marca a cena hardcore.

Então, já com a casa completamente lotada, Madball subiu ao palco e iniciou a festa com “Nuestra Familia”, disparando imediatamente um moshpit gigantesco que tomou conta da pista de ponta a ponta. Na sequência vieram “Can’t Stop, Won’t Stop” e “Hold It Down”, mantendo a intensidade nas alturas. No entanto, um pequeno problema técnico acabou chamando atenção: o microfone do vocalista Freddy Cricien estava muito baixo e apresentava alguns ruídos.

Ao final desse primeiro bloco, Freddy fez uma breve interação com o público, perguntando quantas pessoas estavam vendo a banda ao vivo pela primeira vez. Em seguida, o grupo disparou “Set It Off”, um clássico absoluto do repertório. A sequência continuou com o peso de “Smell the Bacon” e “Lockdown”, além de “Get Out”. Esta última, curiosamente curta, acabou sendo repetida por Freddy, que brincou dizendo que ainda não estava sentindo a energia necessária da plateia.

A parte central do show trouxe uma mistura equilibrada entre clássicos dos anos 1990 e faixas mais recentes, como “Infiltrate the System”, “Across Your Face”, “Face to Face”, “Fall This Time” e “Tethered”. Esta última, ainda inédita, deverá integrar um futuro lançamento da banda. Freddy, inclusive, reforçou no palco que pretende retornar a São Paulo o mais rápido possível após a chegada do novo material.

Ao longo de todo o set, Freddy demonstrou uma vitalidade impressionante. Aos 50 anos, o vocalista mantém uma energia quase juvenil, correndo pelo palco, incentivando stage dives e se aproximando constantemente da beira do palco para dividir o microfone com os fãs. Já os músicos Mike Gurnari e Mike Justian, embora não façam parte da formação clássica da banda, cumprem seus papéis com precisão e peso, executando as músicas com extrema competência.

Na reta final, o quarteto reservou uma sequência repleta de clássicos, como “Down by Law”, “Look My Way”, “Rev Up” e “100%” — esta última uma homenagem à cultura latina, com trechos cantados em espanhol. Durante “New York City”, parte do público chegou a esperar uma possível participação de Supla, que estava presente na plateia e chegou a viver de perto a cena hardcore nova-iorquina nos anos 1990, sendo amigo próximo dos caras do Madball. No entanto, a participação acabou não acontecendo. “It’s My Life”, cover de The Animals, e “Doc Marten Stomp”, ambas acompanhadas com grande entusiasmo pelo público. Para encerrar a noite, a escolha foi “Pride (Times Are Changing)”, que colocou um ponto final em uma apresentação intensa.

Com quase 40 anos de carreira, o Madball segue mais furioso do que nunca. Freddy se comporta no palco como um verdadeiro furacão, conduzindo o público com carisma e energia contagiante. O legado do hardcore nova-iorquino permanece vivo — e em plena forma.

Fotos: Raíssa Corrêa (@showww360) — credenciada pelo site “Raro Zine”, que gentilmente compartilhou seu trabalho com Heavy Metal Online

Setlist

Nuestra Familia
 Can’t Stop, Won’t Stop
 Hold It Down
 Set It Off
 Smell the Bacon
 Lockdown
 Get Out
 Don’t Misstep
 Infiltrate the System
 Across Your Face
 Face to Face
 Fall This Time
 Tethered
 Flammable
 New York City
 Colossal Man
 Down by Law
 Rev Up
 It’s My Life
 For My Enemies
 Look My Way
 Doc Marten Stomp
 100%
 Pride (Times Are Changing)